1- Débora,
você tem cerca de 26 anos de experiência com o ballet clássico. Conte-nos a
importância desta modalidade para a bailarina de Dança do Ventre.
O Ballet nos
ajuda a entender a importância da disciplina e da perseverança na dança. Desde cedo,
adquirimos o hábito de freqüentar as aulas e tomamos consciência do quanto é
imprescindível as sequências de exaustivos movimentos diários.
Não se
pode deixar de afirmar que o ballet ajuda de forma
considerável o desenvolvimento da bailarina de Dança do Ventre. Os braços e
postura são os primeiros pontos a serem notados em quem faz dança clássica.
Técnicas de alongamento, equilíbrio e giros também são favoráveis à dança
árabe.
Enquanto
bailarina clássica (ballet) adquiri conhecimentos preciosos sobre teoria
da música (aulas de piano, mais tarde), história da dança, terminologia
do Ballet Clássico, noções de anatomia, aulas de expressão e
teatro, entre outras tão necessárias para se destacar nesta área como aulas de
repertório, Pas de Deux, e muito mais.
Como
bailarina de dança do ventre é aconselhável buscar conhecimentos que agreguem
valor ao nosso trabalho, seja para se manter apenas em shows ou em aulas. Mas
não é preciso ficar preocupada se não teve início no ballet para
alcançar resultados favoráveis. Na realidade, o sucesso depende de uma série de
fatores. Existem muitas bailarinas se destacando no mercado que não passaram
pelas aulas de ballet. Ele veio acrescentar elementos à nossa
dança, e não nos tornar escravas de sua rigidez. Amo o ballet, mas
a liberdade que a dança do ventre nos dá, me apaixona a cada instante.
2- Ao
descobrir a Dança do Ventre, você aperfeiçoou seus conhecimentos em São Paulo,
mesmo morando no Maranhão. Como foi, na época, dançar fora do eixo Rio-São
Paulo? Há dificuldades para quem é de fora, ou, para você, o talento não tem
barreiras?
Eu já tinha passado por algo bem
parecido quando decidi me transformar em bailarina clássica profissional.
Iniciei as viagens para o Rio aos 13 anos e não parei mais. Outras cidades foram
se incorporando como centros de estudo: Brasília, Niterói, Belo Horizonte, São
Paulo, Fortaleza, Belém, Londrina.
Com a
dança do ventre não foi diferente. Quando percebi que queria estudar de forma
mais séria, minha professora no Maranhão me mostrou um vídeo da Soraia Zaied e
me apresentou a Khan El Khalili. A partir desse momento, as viagens
para São Paulo tornaram-se constantes. Eu tentava não ficar por mais de três
meses sem atualização, por isso estava sempre nos workshops e
cursos disponíveis em São Paulo.
Dançar
fora do eixo Rio-São Paulo não é tão fácil, principalmente há algum tempo
atrás. Acredito que o que mais dificulta seja o deslocamento. Geralmente as
passagens têm um valor elevado para quem está iniciando seus investimentos na
dança. Na maioria das vezes, quem começa dança não dispõe do valor necessário
para adquirir material didático, roupas de shows, acessórios, e ainda cobrir
gastos com passagens para os grandes centros, arcando com sua estadia e
refeições.
Acredito
que o talento não tem barreiras. Mas precisamos, também, gerenciar as nossas
finanças. Ter talento talvez ajude a encontrar patrocinadores, porém não é
garantia de sucesso.
3- Além
da formação clássica, você tem a formação profissional em Administração de
Empresas. Fale sobre a importância do estudo, informações e independência da
mulher que dança.
Nada é
mais triste do que encontrar alguém que você admira no palco e perceber que é
“vazia” por dentro. Conhecimento nunca é demais. E isso não significa cursos
caros ou uma infinidade de especializações.
Sabemos
que não é tão fácil viver só de dança no nosso país; podemos então concluir que
ficar somente dançando não nos levará muito longe. Mesmo que você determine
montar um negócio como uma escola, por exemplo, será necessário ter noções de
administração, conhecer a parte financeira, marketing, entre outras
áreas.
Outro
ponto é não tornar-se alguém que somente consegue falar de um assunto apenas.
Por isso ler é fundamental. A leitura nos manterá sempre ativos em qualquer
situação.
Uma
bailarina que pretende permanecer no mercado por mais tempo, precisa manter-se
bem informada. É essencial que entenda a ligação entre sua área e as demais,
principalmente no que se refere às relações humanas.
O
importante aqui é perceber que não se pode ficar parada. Minha professora de
português, no ginásio, já dizia: “Mente vazia é oficina do que não presta.”
4- Quais
são as bailarinas que você admira e quais as que inspiram o seu atual trabalho.
Admiro
muitas bailarinas e cada uma delas me inspira de forma diferente. Em cada fase
da minha carreira uma tinha a minha atenção em especial. As bailarinas egípcias
antigas possuíam “um algo a mais” que muitas estrelas atuais não têm.
Costumo
dizer que o nosso estudo de dança acaba virando uma “colcha de retalhos”, pois
a inspiração vem de diferentes lugares, os braços de uma bailarina, a expressão
de outra, os desenhos e movimentos de uma terceira, e por aí vai.
Falar
de uma bailarina específica muitas vezes nos dá a sensação de que estamos esquecendo
alguém especial. Para não cometer este erro, permita-me omitir nomes
específicos. Inspiração e admiração são realmente fatores muito subjetivos.
5- Você
tem alguns artigos- muito bons- sobre a dança em diferentes contextos. Pelo
quadro de horários, vejo que suas aulas na Casa de Chá têm grande procura.
Conte um pouco sobre a ‘Débora professora’, seu estilo, sua didática, o que
acha importante no ensino da dança.
A
Débora professora não é muito diferente da que você encontra no café para um bate-papo.
Procuro deixar todo mundo a vontade nas aulas, principalmente se é seu primeiro
contato com a dança. As correções acontecem sem sufocar quem está iniciando.
Tudo precisa ser “naturalmente” apreendido. E os resultados têm sido
satisfatórios.
Minha
didática atual traz a bagagem das aulas de clássico, acrescentando outras
formas de alongamento e warm up (aquecimento). Gosto de
trabalhar movimentos isolados e depois lançá-los em sequências, aproveitando
para exercitar memória, concentração e coordenação motora.
Vejo-me
em sala como uma facilitadora e essa palavra expressa exatamente o que todas
nós, professoras, devemos ser. Fico sempre imaginando novas formas de ensinar
um mesmo movimento, porque o canal de percepção de cada aluna é diferente. E
isso não torna alguém mais inteligente ou não, essa diferença é simplesmente na
maneira que o “botãozinho da memória” é acionado quando estamos aprendendo
algo.
No
ensino da dança é importante não ser uma ilha, não se fechar e achar que o
mundo parou. Quando você se propõe a ensinar, está recebendo a responsabilidade
de atualizar os conhecimentos que passa adiante.
Também
é fundamental não ter pressa, respeitar o tempo do seu próprio aprendizado para
depois lançar-se como professora.
6- Atualmente
há uma gama imensa de fusões e variedades na Dança do Ventre. O que pensa sobre
isso? Acha que o caráter ‘tradicional’ da Dança do Ventre tem se perdido em
meio a tantas novidades e adaptações?
A dança
evolui e vai continuar sofrendo influências de todos os tipos. Precisamos
apenas ter bom senso no meio desse processo todo.
Acho
válido o uso da criatividade para tornar a dança ainda mais rica, mas existem
alguns limites para isso.
O
importante é que a dança do ventre não perca sua essência na mistura com tantas
outras. Eu costumo separar “dança do ventre” de “performance”: na
primeira vemos a dança tradicional mesmo que sofra uma leve influência, na
segunda você não consegue distinguir quem está influenciando quem.
Algumas
pessoas estão construindo trabalhos dignos de apreciação, agregando fusões em
sua dança e nos presenteando com verdadeiros shows. Mas infelizmente ainda
existem aquelas que não pesquisaram muito, antes consolidar a “mistura”, no
final não entendemos seus movimentos e o brilho da dança se esmaece.
7- Existe
alguma dica que possa ser transmitida por escrito, em relação a soltar o
quadril, ‘amolecer’ os braços – geralmente a parte mais difícil para iniciantes
– e leitura musical? Compartilhe conosco.
Dicas
por escrito são um tanto complicadas...rs..rs... Existem exercícios para soltar
o quadril, mas precisaríamos estar próximas para mostrar como se faz.
Os
braços são a moldura do corpo; se não estiverem belos, podem danificar todo o
resto da pintura. Para estes existem algumas brincadeiras que ajudam bastante:
coloque uma linda pulseira no seu braço, daquelas que brilham e tente observar
como ela reage ao seu movimento; você vai querer levantar, baixar, balançar,
fazer círculos com o braço, e aos pouco você vai perceber que está fazendo uma
infinidade de movimentos sem pensar muito, de forma livre e natural. Com isso
seus braços vão se soltando. Mais tarde vem a parte técnica, onde você irá
trabalhar a simetria dos braços.
Quando
se é iniciante, tudo parece complicado. Primeiro tenha em mente que até uma
guerra é vencida, de batalha em batalha. Então, vamos aos poucos; uma vitória
de cada vez.
A
leitura musical não é tão simples, porque mexe com ritmo, musicalidade e nem
sempre somos natos nesses quesitos. Mais uma vez, serão válidos muitos treinos.
Exercite os ouvidos com a música árabe. Dê preferência para as músicas mais
clássicas, já que a quantidade de instrumentos é sempre maior. Perceba como a
música se modifica o tempo inteiro, que existem breaks e
retomadas bastante interessantes que possibilitam criatividade extrema. Uma das
riquezas da música árabe é que ela não é linear. O fato de ela modificar-se
muitas e muitas vezes durante o seu percurso lhe permite executar apresentações
que podem se tornar verdadeiras obras de arte.
8- Quais
estilos musicais você prefere dançar?
Desde
que comecei me inclinei mais às clássicas por influência do ballet.
Violinos, cellos e flautas me inspiram. Confesso que sinto
falta do piano quando danço. Instrumentos de cordas e sopro sempre me conduziam
para um outro plano. Por isso, minhas primeiras músicas árabes foram clássicas,
preferencialmente com um grande número de instrumentos em cena.
Mais
tarde comecei a ouvir as moderninhas e os estudos foram exercitando meus
ouvidos para as músicas folclóricas também. Como disse anteriormente,
precisamos nos alimentar de informações diversas.
Na Khan
el Khalili como a dança é sempre de improviso, precisamos estar
preparadas para literalmente “dançar conforme a música”. Por isso o estudo é
indispensável.
9- Conte
um pouquinho sobre seu dia-a-dia fora do âmbito de trabalho: o que gosta de
fazer, ler, lazer, etc.
Procuro
sempre acordar de bom humor. Acredite, tem exercício para isso!...rs..rs
Tenho
uma gostosa rotina. Gosto de um bom café da manhã (aliás, sou viciada em café).
Quando estou ativa (às vezes paro um pouco por ordens médicas): pratico
exercícios, faço uma aula onde misturo yoga e pilates, às vezes acrescento uma
“barrinha” de ballet. Estudo vídeos de shows e didáticos. Separo
algumas horas para planejar aulas e preparar sequências.
Vou
para a Casa de Chá e junto com o Jorge, organizo a parte administrativa.
Elaboração de novos processos, reuniões de planejamento, preparação de
treinamentos, etc. Enfim, rotinas de uma empresa.
Amo
ler, desde pequena. Confesso que sempre gostei mais de livros que bonecas. Não
conseguia entender a aplicabilidade que elas tinham. Livros me ensinavam muito,
e ainda me ensinam. Leio romances, biografias, ficção, psicologia,
antropologia, história, administração, filosofia, e entre outros ramos. Brinco
com minhas amigas dizendo que leio até bula de remédio. E o pior, é que leio
mesmo. Entre meus autores preferidos estão: Dale Carnegie, Peter Drucker,
Napoleon Hill e Stephen Covey. Tenho o hábito de ler em média três a quatro livros
ao mesmo tempo.
Além da
leitura, sou amante de cinema e teatro. Em nossa casa, permitimos nos deleitar
horas e horas com filmes clássicos (verdadeiras preciosidades), desde comédias
do tipo “sessão da tarde”, dramalhões e aventuras fascinantes de piratas,
índios e descobertas. Adoro, também, reservar algum momento no meu dia
para escrever ou corrigir artigos. Palavras cruzadas é um vício maravilhoso.
Talvez
para muita gente eu não tenha uma rotina tão interessante assim, mas eu procuro
transformar cada dia da minha vida em uma oportunidade de crescimento para
minha alma. E sempre agradeço a Deus (todos os dias) por isso.
10- O
que você pensa sobre as maneiras de divulgação de shows e imagens que a maioria
das bailarinas hoje em dia utiliza? Sei que você, assim como eu, nem Orkut tem.
Há maneiras e maneiras de divulgar um trabalho? O marketing pessoal também é
importante para bailarinas?
O marketing pessoal
é indispensável para qualquer bailarina.
Não se
consegue nada sem propaganda. Todavia, precisamos ter cautela quanto aos meios
de fazê-la. Fotos e sites devem ser feitos por profissionais específicos. Nada
de tentar baratear as coisas, elas acabam sempre saindo mais caras quando
feitas assim.
Cuidar
do visual já é uma ótima propaganda. Não precisamos de exageros nas roupas para
chamar atenção. Mas o que falta sempre é o efeito multiplicador da imagem: este
é o “pulo do gato”.
O Orkut é
um meio de criar novas redes de relacionamentos e uma fonte de divulgação de
imagem. Cabe a cada um decidir até onde é rentável esse tipo de exposição. Não
pretendo criar um perfil, porque separo sempre minha vida particular da vida
profissional. Percebi que aproveito melhor os momentos com a minha família,
longe de olhares curiosos. Não precisamos de exibições desnecessárias para nos
sentir felizes.
Para
quem não entende nada sobre marketing, a dica é procurar um curso
ou alguém da área para gerenciar sua imagem. A escolha da foto para o cartão de
visita é tão importante quanto a roupa que você vai usar em sua apresentação.
Não economize energia quanto a isso. Busque informações.
Se você
não souber como divulgar o seu trabalho ou como preparar seu marketing pessoal,
dificilmente o sucesso baterá à sua porta.
11- Em
2001 você entrou para o rol das grandes bailarinas da Casa de Chá. Hoje, sete
anos depois, além de esposa de Jorge, você também dirige a casa. Poderia falar
sobre essa virada em sua vida e de como analisa esses acontecimentos?
Tudo
aconteceu de forma inesperada. Quando iniciei dança do ventre eu trabalhava em
uma companhia de dança, era assistente de coreografia, ensaiadora e coordenava
os elencos dos ballets e óperas que estavam sendo montados.
Também dava aulas de dança de salão, mais especificamente tango, salsa,bolero e
rumba. Na época da Pré-seleção eu estava em meio a uma tournée pelo
país. Só pra ter uma idéia: estava no Rio a trabalho, fui ao Maranhão passar
dois dias, segui para São Paulo onde me apresentei para a Banca e logo depois
já estava em Brasília. Quando recebi a notícia que tinha passado na Banca,
estava em Londrina com um grupo de coro e ballet.
Minha vida sempre foi agitada assim...rs..rs
Depois
que passei em 2001, fui convidada para estagiar na casa e participar dos
vídeos. Meu contato na Khan el Khalili era Fabiana que
trabalhava com as escalas e todos os procedimentos com bailarinas.
No
final de 2002 parei de dançar. Submeti-me a uma nova cirurgia e isso me tirou
um pouco as forças para retornar profissionalmente. Continuei trabalhando com a
dança (ballet), mas apenas dava aulas de dança do ventre; já não dançava
mais. Tentei parar definitivamente. Exclui emails, apaguei telefones da minha
agenda e parei de acessar o site. Lembro que enviei email relatando que estava
abandonando a dança. Pra você ver o quanto o mundo gira!
Fiquei
bastante tempo afastada. De 2002 até 2007 não tive mais contato com ninguém
na Khan el Khalili.
O
retorno aconteceu por causa das minhas alunas, e por insistência delas aceitei
retomar as aulas no Maranhão. Nunca gostei de deixar nada pela metade, então
voltei a estudar para que elas tivessem informações corretas da dança; mesmo
assim não me apresentava ao público. No final de 2007, resolvi que voltaria a
dançar e então procurei a Casa de Chá. Muita coisa já havia mudado desde que
saí.
O Jorge
veio como presente de Papai Noel. Foi um reencontro de almas, já que imagino
que fomos cúmplices em outras vidas. Somos parte um do outro, não temos dúvidas
disso. Nossos pensamentos são parecidos até na verbalização das idéias. É um
presente que agradeço diariamente a DEUS.
Débora,
queria agradecer pela entrevista e parabenizá-la, mais uma vez, pela humildade
e simpatia com que você sempre recebe a todas as bailarinas e pessoas que
freqüentam a Casa. Com certeza, quem passar por lá, ou tiver a oportunidade de
fazer os cursos do Habib, vai poder conferir, assim como eu vi pessoalmente, o
quanto você é simples, sincera e afável. Desejo sucesso! Utilize este espaço
para falar sobre o que quiser. Obrigada!
Eu é
que agradeço Luciana, pelo seu carinho, pela sua forma gentil de usar as
palavras e pela divulgação que você faz da nossa arte.
Abraços
sinceros,
Débora Sabongi
Entrevista realizada no ano de 2009.