1-
Jorge, você é carinhosamente chamado de ‘Habib’ pelas bailarinas e pessoas mais
próximas. Quem o conhece sabe que mais do que um apelido, ‘Habib’ não pode mais
ser dissociado de você, sempre tão gentil e sincero. Conte-nos como surgiu esse
apelido e algumas curiosidades acerca disso.
Há
mais ou menos uns 20 anos atrás, uma secretária chamada “Bia”, começou a me
chamar de “Habib”, durante o expediente da Casa de Chá. A princípio
estranhei um pouco, pois soava engraçado e ao mesmo tempo, um pouco íntimo
demais. Alguns dias depois, comecei a achar também um pouco pejorativo.
Aos poucos fui percebendo que era uma forma carinhosa mesmo de me tratar.
Não havia maldade nem segundas intenções. Algumas pessoas começaram a me
chamar de Habib também porque repararam que quando ouvia esta palavra eu
olhava, mesmo assim, para mim continuava soando esquisito.
Aí
as primeiras bailarinas começaram a chamar também. Ano após ano gerações
de bailarinas foram se sucedendo e isso ia acontecendo de forma natural.
Uma
vez, após um grande evento fomos comer fora num restaurante. Como o nosso
grupo era formado pela maioria de bailarinas era um tal de Habib pra cá, Habib
pra lá e num determinado momento um sujeito me chamou num canto e
perguntou: “Meu, vem cá, me diz: onde você arrumou esse Harém?” E
eu respondi: “Você pode não acreditar, mas é um Harém de verdade,
mesmo!”. E ele: “Como é que eu faço para um monte de mulheres me tratarem
assim: Habib, Habib, Habib?” Falei: “É simples: seja um Sheike e
tenha um Harém você também!” O sujeito não entendeu nada.
Atualmente,
todo o pessoal que é mais próximo me chama de Habib. É uma curtição.
2-
Em todos esses anos à frente da Khan El Khalili, você já viveu muitas histórias
e situações. Como economista, soube administrar muito bem as flutuações do
nosso mercado financeiro. E em relação à dança? Houve períodos de ‘entressafra’
ou a Casa sempre teve um bom acervo de bailarinas especiais, com qualidade? Em
todo caso, é constante a sua direção para manter o padrão de qualidade na dança
da casa ou há períodos e elencos que não precisam de sua orientação constante?
Manter um
negócio seja ele qual for atualmente no Brasil não é uma tarefa fácil.
Além da carga tributária elevadíssima, de uma economia dita “aparentemente
estável” vivemos situações em que o “social” em nosso país foi esquecido há
muito por nossos governantes.
Experimente
precisar de qualquer órgão governamental: nada funciona, tudo demora,
atendimento sempre precário, enfim é literalmente um caos. Observe
atentamente qual destas modalidades você acha que funciona bem: saúde,
transportes, segurança, água e esgoto, previdência... Para um país em que
se paga o imposto mais alto do mundo, estamos mal servidos.
Pagamos
tantos impostos a peso de ouro e recebemos apenas promessas ao vento de
melhorias.
Todos
que vêem a Khan el Khalili funcionando hoje em dia, não tem idéia das
dificuldades que foi manter um empreendimento deste tipo, em todos estes anos,
com tantos planos econômicos mirabolantes, com tantos momentos de dificuldades
financeiras para a maioria das pessoas enquanto bancos batiam e batem cada vez
mais recordes de lucro. Tudo um contra-senso. Houve períodos de
recessão, em que nada andava na nossa economia e mesmo assim, conseguimos
sobreviver, muitas vezes no vermelho. Outro dia, olhando uma agenda
telefônica da KK de 20 anos atrás, me assustei com o número de fornecedores
nossos que não existem mais. Mais de 80% fecharam.
Sobreviver
a quase três décadas no Brasil é uma tarefa de heroísmo.
Mas
voltando a sua questão com relação à dança, é importante lembrar que sempre
primamos pela qualidade da dança, desde o início. Isso que dizer
que o nível de exigência sempre foi alto. No começo muitos achavam que o
grupo era extremamente fechado, mas sempre houve oportunidade para todas que
estivessem em condições técnicas e, é claro, dentro dos padrões estéticos
exigidos pelo mercado.
Aprendemos
que, em se tratando de dança do ventre profissional
“O
público define o que deseja assistir, não nós.”
Tentamos
por diversas vezes contrariar esta regra, mas não conseguimos sucesso. O
resultado é que, todas as vezes que de alguma forma, negligenciávamos isso, o
público diminuía a fluência. Existe uma dose de fantasia nas
pessoas que vão a um lugar que tem show de dança do ventre ou que contratam uma
bailarina para um evento. As bailarinas tem obrigatoriamente que ter
aparência de princesas, roupas belíssimas e corpo perfeito. O público em
geral observa a técnica em segundo plano.
Já
na KK a exigência é maior. Aqui o público quer ver tudo isso e muito
mais. Erros ou falhas comuns não são perdoados. Por termos nos
tornado uma vitrine de dança do ventre no país temos obrigação de apresentar
tudo impecável. É um preço alto a pagar.
Isso
é claro, limitou em alguns períodos a quantidade de bailarinas disponíveis para
dançar e executar os shows da forma como desejávamos. Até 1988 o grupo
era bem pequeno. Tinha em média 10 a 15 bailarinas. Após este
período, Lulu começou a dar aulas. Aí boas bailarinas começaram a
aparecer por atacado a partir de 1991.
Acontecia
uma situação interessante: um monte de gente aprendendo dança só que sem
o menor preparo de cena ou noção de palco. Faltava um complemento para o
aprendizado destas bailarinas novatas.
As
professoras ensinam nas salas de aula, mas elas não podem acompanhar cada aluna
e dar a direção que cada uma delas necessita nos shows para fazer correções,
mesmo porque, muitas delas nem tem como corrigir imperfeições por falta de
estrutura de ensino ou conhecimento sobre a cultura árabe.
Percebi
então que meu trabalho entrava onde acabava o trabalho das professoras.
Alguém
tinha que dizer com franqueza o que era certo e o que não devia aparecer para o
público. Corrigir movimentos, postura, e situações básicas de
comportamento de bastidores. Mais que isso, direcionar as bailarinas de
forma que observassem de forma crítica tudo o que fizessem. Faze-las
acordar para a expressão e o sentimento com a música. Coibir exageros e
incentivar as iniciativas interessantes de cada uma. Controlar egos e
privilegiar as atividades de grupo.
Qualquer
bailarina que sai de sala de aula pensa que show é fazer o que aprendeu na aula
em frente ao espelho. A maioria leva anos para perceber que não é bem
assim.
Existe
todo um trabalho cênico e preparo pessoal para encarar o grande público.
São muitos macetes para assimilar em pouco tempo. E eles só são
incorporados por bailarinas após uma série de sacrifícios e dificuldades ao
longo da carreira.
A
inexistência de direção faz com que em muitos casos, bailarinas percam o bom
senso e extrapolem a realidade da cultura árabe. Perdem a referência e
acabam acreditando de verdade que tem razão naquilo que criam. Mistificam
e desenvolvem doutrinas para suas alunas que viram verdadeiros cultos. É
preciso ter em mente que o mercado de dança do ventre cresce por um processo de
“duplicação”: umas copiando as outras. Logo, se uma professora faz algo
desmesurado, suas alunas vão fazer pior, e as alunas de suas alunas vão
“duplicar” o que é errado, de forma mais errada ainda. Imagine isso na 10ª
geração o que se torna. É exatamente como aqueles telefones sem fio
que fazemos nas brincadeiras quando crianças. Um fala para o outro uma
frase... e quando chega no 10º ouvinte virou uma estória sobrenatural.
É
aí que entra a “direção”. O próprio nome já diz. Trata-se de um
mediador. Alguém que apara as arestas.
Todas
as bailarinas da KK, sem exceção tiveram sua dose de direção para se tornar o
que hoje são aos olhos do público. A medida que as correções iam sendo
feitas, progressos aconteciam e o grupo se consolidava cada vez
mais. Hoje temos um elenco de altíssimo nível, forte e equilibrado.
E
durante tantos anos, as pessoas se perguntavam: “O que acontece com as
bailarinas da Khan el Khalili que são diferentes?” A resposta? Elas
sempre tiveram “direção”.
3-
Você toca snujs e, parece-me, tocava derback também, até acontecer um acidente
em que você machucou a mão. Poderia falar sobre isso? O que significa para
você, o momento de tocar os snujs?
Durante
o transcorrer de nossa vida acontecem coisas que mudam completamente o rumo e
não temos a menor noção do porquê. No início de 1983, sofri um assalto, o
qual reagi e levei um tiro na mão e outro na perna. O que pegou na coxa
direita não me causou nada, mas o da mão direita, me tirou o movimento do dedo
indicador no sentido horizontal. Isso não me impossibilitou de nada, mas
no que se refere ao derback, não tenho como realizar o floreado com a mão
direita como gostaria. Isso já não acontece com os “snujs”.
Comecei
a tocá-los por curiosidade. Um certo dia, observando Shahrazade tocar
snujs para a Lulu numa de nossas salas, achei que poderia tocar também.
Sempre gostei de percussão e foi com eles que me realizei como músico.
Atualmente tenho uma bateria maravilhosa, mas neste momento, não tenho onde
tocar. Você sabe que bateria é um problema para o quarteirão
inteiro. Precisa de uma sala isolada. Ainda vou fazer uma sala para
detonar meus tambores e meus pratos com muito rock and roll.
Tocar
snujs para mim atualmente é um momento de descontração e mudança de
astral. Me ativa os sentidos e se estou de certa forma não tão
equilibrado emocionalmente, ou risonho como gostaria, basta tocar apenas uma
música que tudo muda. Isso transparece no meu rosto e na minha expressão.
Não toco por tocar, mas por prazer.
4- Uma
característica de sua personalidade que eu gosto muito, é a paixão pelo que faz
e a generosidade em compartilhar tudo com quem quer aprender. Sempre foi assim
ou houve momentos em que as poucas virtudes das pessoas te desanimaram?
Sempre
acreditei nas pessoas por mais que a vida me desse invertidas em momentos
inapropriados. Tenho um mecanismo dentro de mim que não consegue se
zangar por muito tempo com alguém. Compartilhar o que aprendi na minha
vida sempre foi um prazer. “Você sabe exatamente quantas sementes existem
dentro de uma maçã; mas não tem idéia de quantas maçãs existem dentro de uma
semente”. Partindo deste princípio, a crença de compartilhar o que se
sabe fica mais fácil. É um orgulho saber que o que você ensina e passa
para frente com sentimento e dedicação se desenvolve em progressão
geométrica; um dia, o que você fez dá frutos lá na frente, muitos anos
depois. Já tive oportunidade de sentir este efeito muitas vezes e pode
acreditar, é uma das melhores sensações que um ser humano pode ter.
Amanhã
todos pereceremos, mas o que ensinamos, surtirá um efeito eterno. Isso é
o melhor reconhecimento que você pode dar a si próprio. Saber que o que
faz, faz bem feito e sem esperar retorno, um dia vai te surpreender de
forma positiva.
Se
mesmo assim, não acontecer de forma positiva, não desista. Você vai
entender quando aparecer o resultado.
5-
Habib, você tem um amplo conhecimento do mundo árabe em geral, não só dança,
mas alimentos, comportamentos e a arte da música. Mas conte-nos: qual o
segredinho do Karkadeh, esse chá de-li-ci-o-so que a Khan el Khalili tem? E por
favor, cite quais os quitutes mais elogiados pela clientela da casa.
Um
dia na faculdade, sentado na “turma do fundão”, eu ria com um amigo meu quando
um professor que se chamava “Tchela” falava lá na frente. Mas o nosso
riso era porque o sujeito era um crânio. Uma inteligência absurda.
Como eu sentia inveja daquela inteligência (no bom sentido, é claro!).
Lembro
do dia que falei para minha turma: “Para eu ter a inteligência do Tchela, teria
que ler livros todos os dias, durante umas 15 encarnações!" Pensei:
"Se o Prof. Tchela consegue em uma vida, por que qualquer um de nós não
conseguiria? É uma questão de determinação pessoal. Esse comentário fez a
grande diferença em minha vida!
Já
gostava de ler antes, pois desde a adolescência tinha tomado a decisão de
aprender algo todos os dias com leituras de marketing e propaganda,
administração e economia.
Daquele
dia em diante, tomei a decisão de ler muito mais. Eu queria a ter
inteligência dele. Passei a comprar livros e livros. Sobre tudo o
que me suscitasse interesse. Já cheguei a ler 18 livros ao mesmo
tempo. Meus amigos passaram a rir de mim, pois achavam isso um fenômeno.
Muitos não compreendiam como eu conseguia me concentrar em tantos assuntos
diversos. Minha biblioteca tem atualmente mais de 6.000 livros e
crescendo sempre mais. Li grande parte deles e atualmente tenho uma
paixão especial por livros que versam sobre história da humanidade, geografia
econômica e Oriente Médio. Só lamento que não viver o suficiente para ler
todos.
Acredito
que este é o maior legado que poderia deixar para meus filhos: a paixão pela
leitura.
Mas
vamos falar sobre o chá...
O
karkadêh egípcio é um chá a base de flor de hibiscus. Seu sabor é
exótico, herbáceo. Azedinho no começo e docinho no final. Toma-se
quente ou frio. No Egito é o chá de preferência nacional. Em todo
lugar que você vai, te oferecem este chá para o início de uma boa amizade,
conversa ou negociação.
Uma
vez um amigo me perguntou o que eu achava que o chá fazia por nós e eu respondi
que o chá nos trás “felicidade”. Porque?
Pelo
simples fato de, em função dele, haver uma aproximação com as pessoas. O
que mais pode ser chamado de felicidade do que você parar um momento na sua
vida e se aproximar de alguém que gosta, para simplesmente, conversar? O
chá lhe possibilita isso: ele aproxima as pessoas. Da mesma maneira que
um cafezinho. Quando você chama alguém para um chá ou cafezinho, você
está dando asas à sua vontade de ter uma companhia agradável, mesmo que seja
simplesmente para jogar conversa fora. O chá de karkadeh tem, para os
egípcios, exatamente esta conotação.
Com
relação aos quitutes da Casa que são mais elogiados, eu diria que todos eles
tem, cada qual, o seu fã clube. Tem gente que adora as saladas árabes ou
os sanduiches que são servidas na cafeteria. Outros preferem determinados
tipos de patê ou pães. A preferência nacional é pelos nossos salgadinhos.
Tem gente que cruza a cidade, já sentindo antecipadamente o sabor deles no
caminho. Já chegam na porta com água na boca perguntando se tem aquela
coxinha de catupiry ou aquele kibe apimentado. Isso quando não entram
dizendo: “hoje quero comer uma dúzia das esfihas”.
6-
Pode-se dizer que você é um homem à frente do seu tempo. Quando a dança ainda
era pouco divulgada em nosso país, você a colocou como destaque na Casa de Chá.
Antes mesmo da onda de ‘vídeos didáticos’ estourar, você orientou e dirigiu
Lulu Sabongi no lançamento de seus vídeos; quando o narguile ainda era apenas
peça de decoração, você criou a Sala da Shisha e por um período muitas pessoas
conheceram o hábito de ‘shishar’ e outros restaurantes e casas do gênero também
começaram a ter esse espaço; agora você criou a Cafeteria, um espaço que além
de prático e ágil, oferece muitas opções multi culturais. Diga: de onde vem
tanta inspiração e idéias que estão sempre há frente? Qual a maneira de trazer
isso para a nossa vida prática, em termos de tornar nossa dança e carreira nada
previsíveis?
Apenas
uma ressalva. Quem criou a Sala da Shisha foi Lulu. Eu sempre
abominei tudo o que fizesse fumaça. Desde 1982 proibi o fumo na KK
(depois uma secretária de um deputado ligou aqui para perguntar se dava
resultado e se as pessoas aceitavam). Portanto, os láureos da shisha não
devem vir para mim.
Primeiramente,
“criar” é uma questão de abertura com todo tipo de idéias, desde as mais
extravagantes até as mais normais. Imagine você fazendo uma bolinha de
neve com as duas mãos e jogando numa ladeira íngreme. Quando ela chega lá
embaixo cresceu muito. Assim funciona com tudo o que você tem de
idéias. A idéia inicial, por mais ridícula que pareça, é a bolinha que
você vai arremessar.
Você
tem que estar atento a tudo que te cerca e procurar observar o que cabe em seu
contexto de vida. Acaba sendo uma habilidade a mais com o decorrer do
tempo. Em se tratando de descobrir ou pensar em coisas novas, tudo
vale. Existem dias que você está com idéias geniais circulando na mente,
outros, nem que faça todo o esforço e concentre-se o dia todo, nada sai.
Acredito
muito na minha intuição. Há muitos anos e por muitas vezes pude perceber,
ela realmente funciona.
A
idéia de “querer fazer” é algo que todo mundo deseja. A questão principal
é “como realizar” ? Aí é que está o “x” da questão.
Muitas
pessoas são ótimas para criar, mas na hora de realizar, não conseguem colocar
mãos a obra. Elas tem, dificuldade em começar algo e ir até o fim.
Bolam algo, mas não anotam em lugar algum e a idéia se perde. Falam para
todo mundo que vão fazer algo e nunca começam. Não administram data para
iniciar algo. Sempre fica para amanhã, a semana que vem
ou “em breve”.
Um
exemplo prático e rápido: não adianta você querer emagrecer se não tomar a
“decisão” de começar imediatamente. Fazer sua dieta de forma
objetiva e não deixar-se levar por doces, frituras, refrigerantes e outros
excessos. Se você não está contente com o que vê na frente do espelho,
deve colocar na cabeça que “precisa de novos hábitos”. A questão é: vai
começar a realizar quando? A resposta: AGORA!
É
preciso que se entenda uma coisa: é a “ação” que define se seus projetos vão
para frente ou não. Quem não tem ação, infelizmente fica na vontade de
fazer algo sempre. Pior ainda, nunca está satisfeito com o que cria.
Para você estar sempre criando é necessário colocar para si que não basta
pensar; tem que colocar em prática e rápido. Idéias, vem e vão.
Idéias geniais aparecem, muitas vezes uma atrás da outra e você tem que estar
atento as oportunidades que elas trazem. Por isso ande sempre com um
bloquinho de notas e uma caneta na bolsa. Mesmo quando vai ao banheiro
(foi num banho que surgiu a idéia da Khan el Khalili).
Colocar
em prática não é simples, mas pode se tornar, se você criar o hábito de
rabiscar, pensar no contexto inteiro, encontrar os prós e os contras e já
iniciar todo processo imediatamente. Nem que seja telefonar para os
lugares para saber quanto custaria se começasse agora.
Outro
fator importante é dar asas a intuição. Brinque com você mesmo de
adivinhar tudo. Adivinhe em quantos segundos vai abrir o farol e conte
baixinho. Adivinhe que música você vai encontrar no rádio e
confira. Adivinhe que horas são exatamente e olhe para o relógio.
Você vai se surpreender como o treino te deixará aguçada a sua intuição.
Brinco
com isso desde menino e para minha surpresa, foi milhares de vezes que
“coincidentemente” acertei algo que estava acontecendo ou iria acontecer.
Na verdade, não acredito em coincidências. As coisas, muitas vezes,
acontecem porque algo que desconhecemos, uma força ou uma energia, as
impulsionam para nossos objetivos. Temos que ser um bom agente nesta
interligação. Somos os arquitetos de nossas vidas e nossos
projetos.
Ser
uma pessoa visionária está em cada um de nós. No desejo de realizar e de
enxergar, com fantasia ou não, como tudo vai funcionar depois de pronto.
Ser visionário é acreditar que a bolinha de neve vai crescer e rolar até não
parar mais.
A
alegria disso tudo? É saber que esta mesma bolinha saiu das suas mãos.
7-
Jorge, uma das pessoas que estão sempre pela casa (e que eu infelizmente ainda
não tive oportunidade de conhecer) é o egiptólogo Wallace Gomes. Poderia nos
contar como surgiu esse ‘encontro’ tão bem sucedido entre vocês? E fale-nos
também da arte da Pintura que Wallace tão bem expressa nas paredes da casa. É
outro diferencial, pois tem qualidade e estética, diferente de grafites e
pichações que outros lugares temáticos têm.
Wallace
é uma das pessoas mais queridas da KK. Começou a freqüentar a Casa quando
ainda era pequeno. Tinha cabelos longos e adorava tudo que dizia respeito
ao Egito. Lia e lê muito até hoje. Aprofundou-se no tema e paralelo
a isso, descobriu que tinha um talento nato para esculturas e pinturas.
Tem
uma personalidade extremamente generosa. Divide o que sabe sem parcimônia
com todos. Pode-se ficar horas falando com ele. É sempre um grande
aprendizado.
Quando
ainda era menino, ele sempre vinha na KK e trazia uma pequena escultura egípcia
que havia feito em casa para trocar comigo por um chá completo. Até hoje
tenho diversas peças dele, as primeiras que fez. Sabia que ele tinha
muito talento. Era uma questão de alguns anos apenas.
Com
o passar do tempo, convidei-o para pintar as paredes da Khan el Khalili e para
a minha surpresa, elas ficaram idênticas as originais pintadas nas tumbas
egípcias.
Fui
saber então que ele estudava todas estas imagens e sabia o significado de cada
uma delas. Seu conhecimento era ainda maior do que eu imaginava.
Quando
tínhamos um fórum da KK, ele respondia as perguntas de egiptologia e
sempre surpreendia com a riqueza de idéias e informações de suas
respostas. Chamei-o então para dar palestras na Casa de Chá sobre o Egito
Antigo. Passaram-se mais de 20 anos e Wallace continua conosco.
Quem o conhece pode atestar tudo o que estou falando.
8-
Jorge, eu conheci a Khan el Khalili no ano de 2001 e desde então, eu sempre
estive presente nos eventos, workshops e momentos variados da casa. Lembro com
carinho do antigo Fórum da Khan el Khalili, que na época inovou criando um
espaço de discussão e informação saudável e muito enriquecedor. Lembro-me
também que eu estava no seu primeiro workshop de snujs, em 2004, e anos depois
assim como muitos, fiquei surpresa na época em que você e Lulu seguiram rumos
diferentes em suas vidas pessoais, porém mantendo um elegante e civilizado
vínculo através da arte. Hoje, percebo que a Khan el Khalili vive um momento de
ampliação e novo crescimento, trazendo mais cursos e eventos, além da já citada
qualidade nos pratos e bebidas da casa (aliás gente, experimentem o sorvete
Anúbis da Cafeteria é o máximo!). Habib, faça um resumo, um parâmetro, enfim,
conte o que tem sido essa trajetória para você como pessoa e empresário.
Isso
daria para escrever um livro. Vou tentar resumir...
Ao
longo destas quase três décadas muitas coisas aconteceram. Quando abri a
KK em 1982 era um menino de 22 anos. Queria muito ter um negócio próprio
que desse certo. Como mencionei anteriormente, gostava de sempre criar
coisas novas e os empregos em que estive anteriormente não me possibilitavam
colocar a criatividade para fora. Então resolvi abrir algo meu. Nem
que demorasse anos para conseguir. A idéia da KK surgiu em 1980.
Dois anos depois ela existia fisicamente. Restava fazer ela sobreviver, o
que seria uma situação bem mais difícil.
Tivemos
a oportunidade de ampliar diversos horizontes nesses anos todos como sendo sub
produtos da Khan el Khalili. O produto principal em si era a Casa de
Chá. Ela é e sempre foi a célula-mãe, a bola de neve inicial.
Depois vieram pelo menos umas 20 variedades: aulas, shows externos, cds,
vídeos, revistas, personagens infantis, Noites no Harém, pré-seleção, griffe,
programa “O Harém” na Internet, site cultural, workshops, cafeteria, sala da
shisha, Super Noites no Harém, cursos, livros (em compilação), e outros.
Todos tiveram sua época e muitos, mantêm-se até hoje.
O
Fórum e a Comunidade do Orkut, eram interessantes, mas resolvemos tirar do ar
por diversos motivos. O principal deles era a necessidade de um
monitoramento para evitar atos de vandalismo, que passaram a ser
freqüentes. Então, achamos conveniente não nos expormos.
Hoje
para mim, a Khan el Khalili pode ser considerada uma realização com diversas
ramificações. Mas um fato curioso que sempre paro para pensar é que a
partir do momento em que ela passa a ser previsível e sem desafios, eu
dou um jeito de criar uma nova possibilidade de mercado ou inovação. Acho
que faço o tipo “querer arranjar uma nova sarna para se coçar” a medida que as
coisas tendem a um assentamento. Tenho a impressão que jamais teria
condições de criar algo e conviver apenas com uma única possibilidade, isto é,
abrir um negócio e ficar atrás de um balcão ou simplesmente no caixa, apenas
cobrando. Seria a minha morte cerebral. Meu negócio é pipocar
sempre coisas novas.
Ser
empresário no Brasil é fazer papel de mágico a cada dia que passa. Um
operador de milagres. Um ilusionista, muitas vezes para você mesmo.
Tem horas que penso que estou doido, porque penso em algo e vejo que ninguém
pensou. Aí me pergunto: “Como é que tenho uma idéia dessas e ninguém
apareceu com isso ainda?” Não tenho a menor dúvida... coloco em prática
no ato.
Ter
um negócio no Brasil, é sinal de que você tem que colocar a prova seu
sangue-frio constantemente e concomitantemente a isso, tem que estar sempre
aquecendo seu coração para lidar com pessoas e situações. Muita gente se
endurece pelo fato de ter que passar por situações de pressão. Eu procuro
rir sempre da situação e colocar mãos a obra. É a melhor maneira de
sobreviver no mercado; a verdade é que não existe um dia igual ao outro.
Por isso, se o dia de hoje foi ruim, não quer dizer que isso irá
perdurar. Se foi excelente, mantenha-se equilibrado também para não
perder o chão e achar que tudo vai ser essa maravilha eternamente. Posso
dizer que a rotina inexiste na Khan el Khalili.
Se
eu morresse hoje, fecharia os olhos com a sensação do dever cumprido, sabendo
que dei o melhor de mim em cada coisa que fiz. Principalmente, sempre
usei tudo o que aprendi para propagar de forma positiva com novas
possibilidades. Mais, procurei sempre favorecer muitos de alguma maneira,
principalmente em conhecimentos e sonhos.
O
que aprendo, o que sei, eu passo pra frente, sem dó.
9-
No seu curso ‘Direção e Preparação Artística’ teve um módulo em que você
literalmente deu uma ‘aula’ sobre OmKhalsoum e o comportamento do povo egípcio.
Finalmente entendi o porque de OmKhalsoum ser tão importante, suas músicas tão
introspectivas e poéticas. Você pode falar sobre isso aqui, ou escrever um
artigo no site da casa ou vai deixar apenas para os privilegiados que fizerem o
curso? (se você não falar eu também não falo,ok?!)
Gostar
de dança árabe faz você querer imediatamente conhecer um pouco da realidade do
povo egípcio: seus costumes, tradições, correntes de pensamento e a forma como
eles observam o mundo e as situações. Isso tudo é retratado na
música. Principalmente, nas músicas clássicas, na interpretação de um de
seus maiores mitos: UmKhalsoum.
Gostar
de música egípcia é aprender a gostar de OmKhalsoum. São músicas que
realmente emocionam a medida que você consegue observar o grau de sensibilidade,
tanto na poesia das letras, como na harmonia instrumental das
orquestras. São verdadeiras obras-primas musicais.
Poderia
falar dela um dia inteiro e não seria o suficiente para transmitir tanta emoção
que suas canções nos fazem enlevar.
Um
pouco mais sobre tudo o que OmKhalsoum representou e representa pode ser
encontrado no link: http://www.khanelkhalili.com.br/curiosidades%204.htm(página
de Curiosidades 4 do nosso site).
Somente
quando uma bailarina dança uma música de Om Khalsoum é que ela percebe o quanto
tem a aprender em termos de sutileza nos movimentos, riqueza coreográfica e
encanto.
10-
Habib, para finalizar, cite para as bailarinas quais os pontos mais importantes
que elas devem ter na dança e no comportamento dos bastidores. E se você puder,
cite alguns nomes de bailarinas que, para você, são exemplos de conduta ou
talento.
É
praticamente impossível citar nomes de bailarinas na questão de conduta e
talento sem levantar suspeitas ou atiçar ânimos avessos. Sempre que me
pedem para citar nomes de bailarinas, prefiro me eximir. Tenho minha
opinião formada sobre cada uma delas, pois a forma como observo seu
direcionamento é algo muito peculiar.
Muitas
vezes, quando cito algumas, brinco com situações engraçadas ou cenas pitorescas
(que aliás são muitas), de cada uma delas. Seus progressos, seus exemplos
de perseverança e principalmente, a forma tranqüila de lidar e se comportar em
palco e bastidores.
As
bailarinas KK possuem uma disciplina e rigidez que é aprendida aqui dentro
desde que começam a estagiar. Isso evidentemente as diferencia na questão
de conduta de bastidores. A exigência é necessária se você pensar que são
tantas cabeças pensando de forma diferente e todas coordenadas para um único
objetivo de grupo.
Ajustes
aqui e ali são sempre feitos e vive-se harmoniosamente numa turma com mais de
100 profissionais ativos. O mais importante: todas aceitando
equilibradamente o trabalho de equipe e convivendo bem com as diferenças
individuais de cada uma. Todas têm defeitos e tem noção disso; todas se
ajudam, e, o mais interessante, todas se ensinam. Isso aqui uma
verdadeira universidade da dança oriental com pós-gradução e tudo. Isso é
para nós um grande orgulho.
Em
poucas palavras eu diria que a bailarina nos bastidores deve ter o mesmo comportamento que teria
num palco com aproximadamente 2000 pessoas na platéia observando cada movimento
seu. É necessário, portanto ter bom senso, policiar-se para não cometer
gafes que a tirem de sua posição perante as pessoas que as observam em silêncio
esperando ver “como se comporta tal princesa” (não tenha dúvidas, apesar de
disfarçando, todos estão te observando quando está vestida como bailarina,
mesmo de “abay”). Saber a hora de falar e a hora de calar. Não
contar vantagens. Ser delicada e ter noção do momento de se retirar.
Existem
bailarinas que ao longo de suas carreiras traçam um perfil ético e se mantém
naquele perfil, independente das situações que venham a passar ao longo dos
anos. Constroem personalidades equilibradas e bem humoradas. São
bem aceitas onde quer que vão. Não possuem diferenças com outros
clãs. Seu ego é um exemplo a ser seguido e não interfere em nada no seu
convívio com as mais variadas pessoas. Respeita o seu público, mesmo na
hora de tirar uma foto ou dar um autografo. Impecáveis nas rotinas que
envolvem seu trabalho e disciplinadas nos horários estabelecidos. Este é
para mim, um exemplo de conduta.
11-
Muito obrigada por conceder essa entrevista e por compartilhar com todos os
seus conhecimentos. Por favor, utilize esse espaço para falar sobre o que
quiser e leve o carinho em meu nome e em especial, de todas as bailarinas de
Guararapes-Sp.
Eu
que agradeço a oportunidade de poder falar um pouco sobre estes assuntos a
todos.
Vejo
que muitas pensam em termos de escassez quando o assunto é dança do
ventre. Sempre foi assim. Desde que o mercado não tinha mais
do que 10 bailarinas.
Sentem
receio de perderem suas posições. Ficam ressabiadas em diversas
situações, pensando sempre que o mercado pode saturar se fizer uso de suas
informações.
Tá
na hora de mudar esse conceito, totalmente fora de moda. Vamos deixar de
pensar com miopia comercial. É hora de aguçar a visão e ter olhos de
lince.
Queria
deixar aqui uma mensagem especial para todas as bailarinas para que sempre
pensem em termos de “abundância” em tudo o que fizerem. Fartura,
entendem! Existe um vasto mercado em nosso país e espaço para todas,
independente da cidade que moram ou da quantidade de profissionais que atuam
nos grandes centros. Se você tem interesse em seguir carreira, faça essa
opção desde já, e lembre-se, quanto mais você olhar para frente, e se dedicar,
mais portas vão se abrir automaticamente com o passar do tempo.
Os
anos me mostraram que a progressão é geométrica para quem faz um trabalho
direcionado e bem feito. Essa deve ser sua maior preocupação. Se
você primar por qualidade em tudo o que faz, o caminho será mais curto
sempre. Você pode não ver os resultados imediatos, mas eles estão
acontecendo.
Esqueça
as picuinhas, as diferenças, os disse-que-me-disse; isso é coisa de quem não
tem perspectiva e tem baixa auto-estima. Funcionam como uma âncora para
seu avanço. Não perca tempo. Olhe para frente e caminhe
sempre. Falaram mal, deixem falar... apenas caminhem e melhorem mais na
próxima.
A
sua estrela está aguardando o seu polimento. Quer deixa-lá apagada, ou
quer faze-la brilhar?
Um
dia nos encontraremos, e você poderá me dizer, olhando nos meus olhos, o quanto
isso teve de verdade na sua carreira.
Abraços
a todos e espero vocês na Khan el Khalili!
Jorge Sabongi (Habib)