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1- Jorge,
neste ano a Khan el Khalili celebra 29 anos de funcionamento, coroada de
sucessos, e, agora, não mais apenas como ‘a casa da arte da dança do ventre’,
mas também como referência em direção artística, espetáculos anuais de dança,
presença em programas de TV, restaurante e cafeteria. Você imaginava essa
multiplicidade de sucesso? Como analisa a trajetória da casa?
Primeiramente gostaria de agradecer
novamente a oportunidade de participar das entrevistas de seu site. É sempre
um grande prazer, porque você realmente tem uma capacidade absurda de
elaborar perguntas pertinentes e abrangentes para cada um em especial.
Voltando à pergunta, quem ouve
palavras assim, tem a impressão que, em todo esse tempo, houve apenas láureos.
É preciso lembrar que, durante esse período (quase três décadas), passamos
por todos os tipos de intempéries. Vivenciamos todos os planos econômicos.
Esse reconhecimento veio de um trabalho focado na prosperidade, apesar de
todas as dificuldades. O mundo capitalista não é estável, é cíclico, o que
nos obriga a aprender a conviver com momentos bons e outros não tão bons
assim. Observando sob esse prisma, é natural reconhecer que empresas
passam por muitos fortuitos ao longo de sua existência. Ninguém está
seguro, nem as multinacionais estão salvas. A capacidade de se manter
vivo e operando está diretamente ligada à habilidade em criar vantagens e
possibilidades competitivas, mesmo quando a situação parece não ter mais
solução. Em outras palavras, nunca desistir. E foi assim que reconstruí a
Khan el Khalili, muitas vezes, desde o zero. Tenho um lema comigo:
“se sobrar uma ‘brasinha’, eu faço novamente uma fogueira”. E assim
foi.
Em 2009, houve uma crise sem
precedentes em todo o mundo. Ninguém passou ileso. Muitos de nossos
fornecedores, infelizmente, deixaram de existir. Tivemos que preparar tudo
para um novo momento, como uma lagarta que entra no casulo para se
reconstruir e se transformar numa borboleta.
O ano de 2010 foi realmente um ano
muito próspero para a viabilização de diversos projetos que estavam
engavetados durante muitos anos. Criamos um “impulso” e fomos no embalo.
Mudamos muita coisa, melhoramos o que acreditávamos ser viável e excluímos o
que não representasse retorno garantido. O resultado é que, agora, estamos
colhendo os resultados do trabalho que empreendemos arduamente durante 12
meses.
Os anos também me ensinaram a ser
bastante paciente com os resultados. Nada acontece sem empenho e tudo tem um
tempo de maturação. É preciso dominar a ansiedade quando muita coisa anda
junto ao mesmo tempo. E eu tinha esta ansiedade bastante arraigada nos
primeiros anos. Com o amadurecimento, pude observar as coisas com mais
cautela e visão de futuro.
Tudo o que temos nessa fase boa é o
resultado desse trabalho. Não quer dizer que vai perdurar para sempre. Seria
muita ingenuidade minha acreditar que tudo se mantém eternamente em
suspensão. São fases e esta fase é de grande progresso. Temos que entender
que, comercialmente, existem períodos de alta e de baixa. E não tenha
dúvidas: todos sentem isso na pele. A grande diferença é a sua determinação
em vergar e não quebrar, sempre. Realinhe as diretrizes e, se precisar, tenha
a ousadia de procurar novos caminhos possíveis. O mundo não para, o que
é hoje muito bom, amanhã poderá ser “nem tanto”. Em cada época da KK,
eu promovi os ajustes e realinhei as diretrizes para continuar caminhando e
desenvolvendo novos rumos. Este é o segredo da longevidade que conquistamos.
Ademais, nunca primamos pela economia
de qualidade. Tudo o que fazemos deve ser bem feito e visando a
oferecer o melhor. Não dá para ser meio termo. As pessoas percebem. Tem
gente que negligencia isso e subestima a inteligência de seu público. Nunca
foi nosso caso.
2- Com
o lançamento do livro ‘Direção e Preparação Artística’, você saiu dos
‘bastidores’ e foi alçado a ‘guru’ de muitas bailarinas, que ainda não
conheciam essa sua faceta de diretor artístico. Como tem sido esse processo
de entrevistas, eventos, workshops, já que você sempre foi discreto e muito
observador. Como é estar sob os holofotes?
Continuo sendo discreto e observador.
Estar onde estou é bom e, ao longo dos anos, felizmente, consegui não deixar
que nada subisse a minha cabeça. Quem me conhece sabe que permaneço o mesmo,
independente do que me aconteça de bom.
Meu trabalho sempre foi e continuará
sendo nos bastidores, tanto é que minhas aparições em público são poucas. Na
verdade, gosto pouco de aparecer. Não porque sou tímido, mas porque minha
realização é outra: está fincada na questão de construir pessoas; torná-las
melhores; desenvolver lados dos quais elas sequer sabiam que existiam;
mostrar que elas podem mais, que isso é apenas uma questão de preparo e de
determinação, de “direção” para dizer a verdade. Desde o início dessa
jornada, estabeleci que meu trabalho seria construir estruturas para que a
dança fosse dignificada como “arte” e é essa minha bandeira. Pode parecer
piegas, mas esse sempre foi meu objetivo. Vou atrás dele enquanto estiver em
atividade. Minha realidade é desenvolver e cultivar a fantasia, vender
sonhos por trás da dança árabe, pavimentar estradas emocionais que tornem a
dança um espetáculo digno de ser apreciado e levado na memória. Sempre foi
isso.
Nunca dei asas as minhas aparições.
Sempre trabalhei nos bastidores, quieto, estudando cada possibilidade de
melhorar a questão cênica e a imagem ou o marketing de
alguém. Na Khan el Khalili, consegui fazer com que o público sentasse e
apreciasse, com respeito, a dança, a bailarina e a mulher.
O “ensinar tudo o que sei” veio à
tona através dos cursos e workshops. Inicialmente algumas pessoas
ficavam indignadas: “o que ele vai ensinar se não é bailarino?” ou “o que ele
sabe de dança do ventre para dar aulas?” O tempo provou que, nesses anos, eu
também aprendi muito sobre este assunto e sobre muitos outros, a ponto de
poder passar adiante, sem receio, inclusive apresentando novos paradigmas
para um mercado que já se apresentava fossilizado em termos de ensino.
Na verdade, podia oferecer muito mais do que imaginavam. Enquanto muita
gente estudava as mesmas coisas durante anos, eu lia muitos livros e vivia
pessoalmente a situação de dezenas de bailarinas que precisavam de
incrementos e de melhorias em seu desenvolvimento. Como observador do
comportamento humano, e com toda discrição, eu desenvolvia maior percepção
cênica e de público. Foi, então, que resolvi colocar isso num livro.
Uma forma de deixar uma herança à dança e a todas aquelas que ainda vão se
apaixonar por este universo.
A ideia principal seria que ele
pudesse não apenas mudar conceitos, mas reestruturar este mercado a médio e
longo prazo. Todos os dias, observava muita gente boa desanimando e saindo
definitivamente de cena. Ao final, percebi que poderia escrever muitos
livros sobre este assunto, mas preferi deixar outras cabeças participarem,
nos próximos anos, desta empreitada. A idéia é que, nos próximos 5 anos,
possamos ter pelo menos 50 livros nacionais bem escritos, que desenvolvam
mentes e ampliem fronteiras. Assunto existe, mas é preciso pesquisa.
Um livro, quando bem direcionado,
confere notoriedade. Quando não, coloca seu autor em condições
delicadas. Já li centenas de livros, que me fizeram admirar muito seus
autores. Tenho diversos mentores (minha cabeça não anda só), aprendo com eles
e aplico muita coisa interessante no meu trabalho. Meus feitos não são apenas
fruto da minha experiência de vida, mas também de um conjunto de
inteligências paralelas.
Os holofotes estão sim acesos nos
bastidores neste momento. Mas isso não me tira o esteio. Permaneço com a
mesma atenção que tinha com todos. Aprendi a dosar minhas aparições, mesmo
sabendo que os resultados do livro estão apenas começando. Gosto de ouvir os
comentários das pessoas sobre o Livro de Direção. Todos os dias têm
novidades. De alguma forma, ele tocou em muita gente. Cada capítulo tem seus
admiradores, gente satisfeita que sempre tem um elogio de gratidão. Para mim,
esta é a melhor forma de realização: poder sentir que contribuo para o bem.
Entrevistas e programas na mídia são
apenas uma consequência de todos os esforços empreendidos.
3-Algo muito peculiar no
livro é a ênfase na emoção. O tripé da dança do ventre (técnica, estética e
emoção) fez com que antigos conceitos caíssem por terra e, se antes a maioria
pensava que o grande segredo eram quadris potentes, hoje se articulam em
busca da ‘emoção’ na dança. O que tem a dizer sobre isso?
Nas últimas décadas, um dos maiores
problemas no aprendizado da dança foi o ensino baseado na cópia de
professoras e bailarinas famosas da geração mais recente (principalmente
egípcias). Todo mundo queria aprender a dançar como sua professora ou como a
bailarina “x”. Então, se admiravam uma professora ou determinada bailarina,
não filtravam o que havia de melhor, fechavam os olhos e se atiravam a
copiar. Deixar as alunas serem suas cópias fiéis não só preenchia o ego
das professoras como criava um monte de “clones” mal feitos e mal-acabados.
Isso quando a professora realmente era uma boa bailarina(!!!); se não era, o
resultado podia ser considerado uma decepção elevada ao quadrado. Só que o
que vale para uma não vale para outra. O aprendizado da dança não é como um
calçado de número 36 que vai servir no pé de milhares de Cinderelas.
Alguém precisava dizer a essas mulheres que cada uma é cada uma. Cada
bailarina tem seu estilo próprio. Só que as próprias professoras não
sabiam extrair o estilo próprio de cada uma, pois enchiam a sala de aula sem
se importar com os resultados de seu empreendimento. Os números falavam mais
alto.
Pior ainda, ninguém sequer sabia como
trabalhar o emocional de suas alunas, para aliá-lo à dança. A dança não tinha
um “tripé”, tinha duas pernas: técnica e estética. Surgiam então os “clones
robotizados”, as “bailarinas-chlichês” que não traziam o sonho à realidade
(essa antítese ficou legal, heim?).
Foi então que resolvi ensinar tudo
isso nos cursos e workshops e, por fim, coloquei no livro.
Já tinha a noção de como preparar bailarinas. Criei uma biblioteca específica
sobre o assunto. Agora a ideia era mostrar como criar esta
possibilidade: a teoria deveria se tornar prática. E foi o que aconteceu.
Quem fez o Curso de Direção percebe em si mesma a diferença, a bailarina
antes e depois do curso.
A dança árabe está ligada
principalmente ao trabalho dos quadris. A sincronia e a tranquilidade em
dançar com precisão. Não com força, mas com delicadeza e naturalidade. Sem
esforços que prejudiquem a saúde. Mas não é só isso. Onde fica a emoção da
melodia? Como determinar os humores sem parecer artificial? Como dançar
adequadamente dentro do tempo musical (sem se perder ou denotar preocupação)
numa música que se alterna o tempo todo? Como continuar sendo você mesma sem
imitar ninguém ou parecer que está “forçando a barra”?
Quem assiste a uma dança expressiva
jamais vai assistir a uma dança mecânica sem ficar perplexo(a). Assim,
o livro e os cursos cumprem seu papel: mudar conceitos, criar ideias e
ampliar a visão sobre a importância da emoção.

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4-Vamos falar de Pré-Seleção. Eu participei em 2010 e
pude ver de perto a seriedade, organização e eficiência de todo o processo.
Como é, para você, estar a frente da Pré e participar de maneira tão intensa e
dedicada de toda a organização; ver tantas bailarinas com características
diferentes; a ansiedade e emoção do grupo...fale sobre isso.
O trabalho da Pré é imenso, mas me incorporei a ele.
Desde 1998, quando me sentei para desenvolver toda a sua estrutura (quase que
dois meses após iniciar as Noites no Harém), calculei todas as regras, a
organização das datas, as cartas de convocação, o panorama da banca, a
divulgação dos nomes, os certificados, enfim, tudo isso foi uma iniciativa
visionária, para criar, a longo prazo, um mercado com melhor qualidade de
dança.
Organizar um evento como este sempre requereu uma dedicação
ímpar. Tenho minhas dúvidas se alguém faria isso com tamanha ênfase e
persistência neste país. Para fazer algo como a Pré-Seleção, é preciso gostar
muito daquilo que se realiza. É querer ver o progresso de pessoas que você nem
conhece e que ainda estão em estágio embrionário; transformá-las, trazer para
fora o talento que ainda não desabrochou. Como um filho que você ensina a andar
segurando uma cordinha, para que ele a agarre com as mãos e se equilibre, a fim
de dar os primeiros passos. É isso, é um filho. Exatamente isso. E filhos, você
sabe, cada um tem uma personalidade diferente. Cada qual tem suas habilidades,
seu carisma e seu brilho todo especial. Também têm suas dificuldades, suas
carências e seus medos.
Existe um detalhe muito interessante nas avaliações
que faço na Pré. Quando assisto aos vídeos das bailarinas, tenho três
possibilidades: 1) SIM, vai para a banca 2) NÃO, não vai para a banca e 3)
TALVEZ vá. Um detalhe muito importante é que não assisto apenas com o intuito
de encontrar erros, mas sim as possibilidades de melhorias que vão determinar a
presença ou não de talento. Quando assisto a alguém, consigo ver esta pessoa 5
anos mais tarde. Portanto, muitos casos de “TALVEZ” eu mando para a banca sem
receio, porque acredito na possibilidade de melhorias em médio prazo (isso se a
bailarina for bem encaminhada). Sempre defendi a tese de que a Pré-Seleção
jamais poderia ser um “mata talentos”. Ela representa algo de idealista, de
visão de futuro e de carinho pelas pessoas.
Aquelas que participam da Pré recebem toda a atenção
possível, na avaliação inicial, na preparação um dia antes, no dia do exame e
após os resultados. Sempre que converso com aquelas que participam, digo
de coração que gostaria que todas realmente passassem, que mostrassem o seu
melhor, sem receio de deixar o emocional tomar conta e causar desequilíbrio. A
ideia de alçá-las para o vôo é algo que não tem preço. Acredite se quiser,
quando elas entram em cena eu torço por cada uma, pois sei que ali existe um
sonho. Também, um dia antes de sair o resultado, eu fico eufórico,
agitado, ligado no 220, como um estudante de vestibular. É como se eu estivesse
esperando para ver se “eu” fui aprovado também. Consigo sentir a mesma emoção
que elas sentem, com aquela ansiedade louca de esperar ver sua foto publicada
como aprovada no site. Pode parecer esquisito, mas eu sinto isso. Tanto é que,
quando não dá pra segurar a emoção, solto o resultado antes da data marcada. A
ansiedade é minha também.
5- Ainda pensando na Pré, já houve casos
de bailarinas que, perante a Banca não apresentam um bom desempenho, mas, no
show a noite, no Harém te surpreenderam com a desenvoltura, expressão ou algo
especial?
Na verdade, a apresentação que elas fazem nas Noites no Harém
depois do exame da Pré é mais uma festa, um momento de descontração depois de
um período de tantas expectativas, estudos, impaciência e apreensão. Tanto é
que normalmente as músicas são mais tranquilas. Utilizamos músicas baladi exatamente para fugir de toda aquela
seriedade com uma música cheia de complicações e exigências. É uma festa em
homenagem a todas elas. Dançar para um público seleto, quem não deseja isso?
Assim sendo, quando elas dançam nas Noites no Harém, a
desenvoltura, a expressão, a malícia sempre tendem a aparecer com mais
facilidade, favorecendo o desembaraço, pois não existe a necessidade de
concentração acirrada nos momentos diferenciados da música, como é o caso de
uma música clássica. Numa música baladi,
basta manter a pulsação rítmica que o restante do corpo e o rosto soltam-se
matreiramente. Não exige grandes esforços das articulações. A surpresa com a
desenvoltura é durante o exame, não na festa. A festa é uma grande curtição
para todos.
6- Nos cursos e workshops, como é lidar com os
diferentes níveis de aceitação acerca de correções e observações que você faz
para as bailarinas? Há casos em que você percebe que a bailarina ainda não esta
pronta para ser dirigida? Se sim, como vê o futuro dessa ‘profissional’?
Esta pergunta é bastante interessante (não que as outras não
sejam). Todas as vezes que inicio um Curso de Direção, explico a todas como
será o procedimento das dinâmicas que iremos aplicar, como será o aprendizado e
como iniciaremos um processo para aguçar a percepção. Mais do que isso, deixo
claro que uma mudança brusca irá acontecer e que, ao final, elas irão se
surpreender com elas mesmas. De cara, deixo claro que não deve haver
inibição. Tem gente que pergunta: “mas eu vou ter que dançar para o
Jorge?”, respondo logo: “vocês vão cansar de dançar comigo olhando, portanto,
vão se acostumando”. Quando estamos lá pela 5ª dinâmica todo mundo já se
sente em casa. Todas ficam surpresas: como se sentem à vontade! Mostro a
elas, por a + b, que não sou um bicho papão. Minha função é de orientador e
facilitador daquilo que elas já sabem, não de um inquisidor. Mais que
isso, sou um “extrator” de habilidades, trabalhando individualmente as
características de cada uma.
Existem casos em que a bailarina não está acostumada a ouvir
críticas. Estão habituadas a serem paparicadas, bajuladas, muito elogiadas e
acreditam que não têm “tantas coisas assim para melhorar”. Acreditem,
todas (absolutamente todas) têm muuuito a melhorar. Independente da experiência
que tenham, podem ficar ainda mais surpreendentes. Não conheço bailarina que
não necessite de “direção”; basta tocar nos pontos certos e dizer exatamente
como é o caminho a ser aperfeiçoado. Quando elas percebem que podem,
instantaneamente, corrigir muita coisa (a partir de uma boa crítica e da noção
de que estão fazendo algo descabido) e, principalmente, que nunca ninguém havia
lhes falado por receio ou mero desconhecimento, elas assumem outra postura no
aprendizado e ficam ansiosas para fazer mais. Aí se tornam outras pessoas, pois
baixam a guarda. Ao final, parece um time de futebol, todo mundo entrosado,
aprendendo umas com as outras, sem medo de se ater a comentários nocivos; todas
falando a mesma língua e fazendo tudo como uma gostosa brincadeira. O curso
produz repentes bastante interessantes. Mas é preciso muito tato. Para mim, é
um agradável exercício de habilidade com as palavras.
Não tive nenhum caso, em todos os cursos e workshops que ministrei até hoje, de alguém
que não se dignasse a ouvir uma sugestão de direção. Inicialmente pode até
surgir uma expressão de receio ou desconfiança, mas, à medida que as horas vão
se passando, elas vão se ambientando, o panorama muda de figura e tudo fica
fácil.
Percebo que muita gente neste mercado não gosta de ouvir, porque
não dá credibilidade à maioria das pessoas. Uns não respeitam a opinião de
outros(as). Tudo é visto com desconfiança e antipatia. Saber ouvir é um
exercício de humildade.
7- A sua
participação e da equipe de bailarinas da Casa de Chá em programas de TV e
especiais gravados na casa são em grande numero. Como é transitar por esse
outro universo, o da televisão? Há algum artista que poderia ser citado, que
chamou sua atenção em relação ao trato com as bailarinas, respeito e humildade?
Eu pessoalmente não gosto de televisão por uma simples razão: é
tudo uma tapeação. Aquilo que você pensa que é um fato real, é tudo armação
maquiada, tudo combinado, ajeitado para ficar melhor à maneira deles. Não
existe realidade, é tudo virtual, criado para iludir o telespectador. Não
compartilho com esse tipo de divulgação. Na verdade, mais recuso que
aceito. Por um simples motivo: não existe o respeito devido. Quando
percebo que não irá trazer repercussão positiva, que não existe confiabilidade
na matéria ou em quem apresenta, evito expor nossa equipe e nossas bailarinas,
recuso mesmo.
Alguns apresentadores são dignos de muito respeito, pois são os
mesmos na frente ou atrás das câmeras. É o caso do Ronnie Von, da Katia Fonseca
e de outros poucos.
8-Algumas pessoas comentam que Kahina é a nova estrela
da Casa de Chá. Eu sei que você não gosta desses títulos e que cada ano traz
sua nova estrela. Mas como analisa o surgimento de verdadeiros ícones da dança
na casa e, ainda que você não goste vou pedir: cite as 5 bailarinas de seu
elenco que você acredita que estejam em um momento especial de suas carreiras.
A Casa de Chá sempre teve muitas estrelas. Todas convivem e
progridem juntas. Algumas sobressaem mais que outras em determinados momentos.
Isso não quer dizer que elegemos alguém em especial. Quem elege é o
público e essa eleição também tem tempo certo.
Kahina para mim é a bailarina da década. Ela conquistou uma legião
de fãs como poucas conseguiram fazer neste Brasil. São diversos os motivos: é
carismática, linda, tem um corpo escultural, é séria no que faz, organizada,
sempre elabora uma boa produção de figurino, dança com extrema destreza e
qualidade.
Os ícones surgem porque são verdadeiros talentos. A música
pulsa dentro deles fazendo com que a emoção flua por todos os poros. Isso vem
de nascença, não tem como forçar. No livro, cito que existem diversos tipos de
bailarinas. Os ícones são os tipos com talentos especiais. Não basta
colocar nas mãos de talentos apenas a melhor das técnicas em dança árabe. Eles
precisam de mais, precisam de um trabalho de “direção”; um norte de alicerces
emocionais e comportamentais de cena; noção de presença artística e de como
induzir sentimentos visando à segurança e à presença de palco. Aí sim, ele terá
muito do que despertar no público. Então, temos o tripé formado.
O ano de 2010 já nos mostrou muitos desses talentos que estão
despontando, exatamente por terem esse preparo. Acredito que em 2011 teremos
muitas surpresas, pois a procura pela melhoria do desempenho tem se tornado
exponencial na Casa de Chá.
Na Khan el Khalili, existem muitos casos de bailarinas que estão
em momentos especiais de suas carreiras. Poderia citar muitas, não apenas
5. Não tenho predileções, nem posso. Existe uma realidade crua. Minha
visão comercial define que existem bailarinas que “chamam público” e
“bailarinas que não chamam público”. Entenda-se que
“chamar público” representa aquelas que conquistam uma plateia fervorosa
imediatamente, fazendo-a pensar em retornar breve a Casa. Tenho que me ater a
questões como esta. Deixo que o próprio público tire suas conclusões e suas
preferências. Minha tarefa é canalizar os shows para que sejam
apreciados.
Não costumo citar nomes para evitar especulações. Citar 5 nomes
seria injusto com tantas outras que também estão no seu “momento de luz” ou que
caminham para ele. Seria criar um sentimento de desconforto para todo o grupo.
É preciso lembrar que, mesmo que eu fizesse uma lista, esta relação seria
dinâmica, mudando 6 meses depois. Muitas estão em ascensão. O mercado está
criando um novo impulso. Dezenas de novos talentos estão surgindo e se
aperfeiçoando. É natural, pois nosso país é imenso e tem lugar para muita
gente brilhar ainda, seja em São Paulo, seja em qualquer outro Estado. A dança
precisa se expandir não apenas em nosso estado.
Para nós, um referencial sobre o crescimento e surgimento de novos
talentos é a Pré-Seleção. Nunca teve tanta gente querendo participar como
agora. Tanto é que já estamos fazendo reserva de vagas para aquelas que vão à
banca só no segundo semestre de 2012.
9- Após quase 10 anos, ‘O Clone’ voltará a ser
exibido. Na primeira vez, meados de 2001 e 2002, a novela foi uma
das grandes responsáveis pelo ‘boom’ da Dança do Ventre no Brasil, nós sabemos
as consequências positivas e negativas que isso trouxe. E agora, com o atual
mercado, como você acha que será ‘O Clone’ revisitado?
O Clone deixou diversas lições para todos nós. A principal delas é
que “tudo o que sobe, desce”. Não podemos ser ingênuos em acreditar que uma
“bolha de consumo” irá perdurar indefinidamente. Muitos que se atreveram a
alçar vôos exagerados naquela época tiveram grandes decepções quando se
encerrou a novela.
É preciso atentar para alguns pontos específicos na reapresentação
da novela:
* ela
não estará passando num horário nobre como na primeira vez. Logo, o pico de
audiência, que era anteriormente beirando os 50 a 60%, deve baixar para 25 a
30%;
* assim,
não atingirá uma parcela tão grande da população, mas sim aquelas pessoas que ficam à tarde
em casa: senhoras, crianças e mulheres que não trabalham fora;
* deverá atingir também pessoas que estão em trânsito
por consultórios médicos, salões de beleza, salas de espera;
* Para quem dá aulas, este é o segmento que “O Clone”
tende a insuflar nos próximos 5 meses, o que não deixa de ser um público
específico e bastante interessante, pois não é exatamente o público que busca
desempenho profissional: são fiéis e, quando gostam, permanecem por longo
tempo (principalmente depois que a novela acabar);
* por não ser uma novidade e sim uma repetição, vem
com uma tarja de nostalgia, sem causar grandes frissons. Oscar Wilde dizia
“você jamais pode repetir uma emoção”. Portanto, não se iludam: não será tão
promissor como antes;
* atingindo
um público caseiro, é preciso lembrar que muitas dessas mulheres, dificilmente
costumam sair de casa, pois estão atreladas aos afazeres domésticos. Pode ser
que dê um boom, como
também pode ser que não; ainda é uma incógnita. Só saberemos a partir de março
ou abril, quando já estará nos dois últimos meses da novela;
* de qualquer forma, pelo sim ou pelo não, é bom
deixar uma estrutura pronta para receber um público afluente que tenderá a
fazer aulas, pelo menos enquanto a novela durar no ar.
* lembre-se
que uma “bolha de consumo” tende a murchar. Portanto, estejam preparados para
mais uma baixa da dança no final da novela;
* o
público de senhoras é praticamente inexplorado neste mercado. Elas tendem a
permanecer ativas nas aulas, mesmo quando passar a febre, mas é necessário
desenvolver um trabalho bem feito, não apenas pensando quantidade, no aspecto
financeiro. Muitas serão “cativas”, no sentido de encararem a dança como um
complemento para suas necessidades, principalmente as psicopessoais (elevar a
autoestima, sentirem-se belas, ter nas aulas um refúgio agradável para suas
vidas, fazer boas amizades, e ter a alegria de viver por serem mulheres).
Na primeira vez, quando a novela terminou, tivemos que implementar
uma propaganda maciça para manter o público cativo. Mesmo assim, houve um
período de baixa.

10- As ‘Noites no Harém’ no teatro
tornaram-se o evento mais esperado do ano por todas as apreciadoras da arte.
Há um gama de itens, como iluminação, figurinos, trilha sonora, elenco que
tornam o evento um verdadeiro espetáculo. Mas, pelo país afora, infelizmente
nem todos os eventos têm essa qualidade. Muitas vezes pela precariedade da
estrutura em si, mas, na maioria, pela desinformação ou desinteresse dos
organizadores. Você poderia falar sobre a necessidade de diferenciar
espetáculos de festivais, arte de entretenimento? Ou acha que há eventos que
podem ser mais simples, despreocupados com o caráter ‘Arte’?
Quando realizamos um evento, é preciso ter em mente que tipo de
público se deseja atingir. Temos diversos tipos de eventos: os profissionais,
os amadores, os concursos que mesclam ambos (e, portanto, quem vai pode esperar
encontrar de tudo), os festivais que são uma miscelânea de coisas boas e não
tão boas assim (quando não deveriam), as mostras específicas, as festas de
aprendizes, as festas beneficentes... a lista é imensa. Vê-se que muitos deles
são mistos.
Um evento misto, isto é, com amadores e profissionais, geralmente
perde muito de sua caracterização como elemento de encanto, pois apresentações
iniciantes não traduzem as expectativas do público, exceto se forem para
prestigiar alguém da família ou a amiga que está dançando. Aí sim eles vibram
quando esta pessoa, mesmo sem o perfil exigido, pisa em cena. As pessoas
que saem de casa buscando um espetáculo de arte desejam presenciar algo que
enalteça sua vivência. Não querem uma imitação da realidade. Elas querem sonho.
Então chegam a um evento e veem muita gente (que não teria condições de estar
pisando num palco) tentando, em vão, concretizar o sonho que elas trouxeram
consigo. Isso confunde e frustra o espectador, fazendo-o se questionar se
deveria estar ali mesmo ou se valeu a pena ter saído de casa.
Quem realiza o evento (aquela pessoa responsável pela organização,
pela direção em si) tem que saber exatamente quais são as necessidades desses
eventos. Espera-se em festivais, por exemplo, que tenham, pelo menos nos shows
principais, algo extremamente gabaritado. Quando não existe um critério rígido
para traduzir isso, as pessoas têm a sensação de que foram iludidas.
Resultado: perde-se credibilidade.
Muitas vezes somos impelidos a colocar nos palcos atrações que não
deveriam ou não mereciam estar ali, pelos mais diversos motivos: falta de
talento dos componentes, descuido com o figurino, ausência de compromisso com
os ensaios, grupos assimétricos ou desarmônicos, pobreza coreográfica.
Fora a falta de conhecimento na elaboração de espetáculos, existe
também o descuido daquilo que se deseja apresentar, que, por questões de
política interna, acabam gerando protecionismo na hora de definir quais são os
números que serão apresentados. Produzir um espetáculo requer critérios e
pulso. Nem sempre quem produz tem a simpatia de todos, porque não se rende a
permitir a baixa qualidade. Não serve, não sobe para o palco e pronto!
Temos que ter a consciência de que, se queremos traduzir a dança
árabe como “arte”, é preciso eliminar a possibilidade de frustrar o público com
amadorismos. Nesse público existem formadores de opinião que, com certeza, ao
apreciarem um evento bem cuidado e rigorosamente impecável, trarão pessoas
influentes para alçarem ainda mais a visibilidade da dança.
11- Habib,
algo em você que eu sempre admirei é a sua discrição em manter a vida pessoal
bem separada do
‘show’, do personagem. Tanto pela sua postura profissional quanto pela
sua fala coerente, que todas podemos perceber não só nos cursos em SP mas por
todo o país, além da decisão de não ter redes sociais e se abster de emitir
opiniões negativas sobre as pessoas. Você acha que essa postura traz alguma
desvantagem? Já houve momentos que em que você gostaria de ‘não ser’ Jorge
Sabongi?
Todos nós que trabalhamos no mundo das
artes temos que nos resguardar. Se você tem um personagem, saiba sempre que ele
não é real, é fictício. Não pode confundir com sua vida real. Misturar as
situações de bastidores fatalmente irá prejudicar a cena num determinado
momento. Ninguém que não queiramos precisa tomar parte de nossa vida pessoal.
Se permitirmos abertura, teremos um monte de gente dando palpites e se achando
no direito de invadir nossa privacidade, simplesmente porque nos tornamos
pessoas públicas. Deixamos de ter controle sobre nossas ações e nossa
vida. É preciso ter um crivo muito forte na escolha dos verdadeiros
amigos. Pessoalmente, não acredito nas redes sociais, apesar de parecerem
indispensáveis na vida moderna. A notícia é que elas são dispensáveis
sim! Alguns demoram certo tempo para perceber, outros talvez nunca
percebam, mas esta é a realidade. Resolvi me excluir dessa modalidade e me
sinto mais feliz assim.
Na verdade, já participei de redes
sociais, tinha também um Fórum KK que era bem interessante. Era cultural e
bastante gente participava. Só que, em pouco tempo, corrompeu-se. Existe um
ditado que diz: “ninguém pode colher rosas sem se picar com espinhos”.
Assim, havia muitas vertentes quando administrava meus perfis. É difícil você
tentar cultivar coisas interessantes trabalhando simultaneamente com gente do
contra. Nessas mídias não existem só amigos, não há apenas gente bem
intencionada. É uma ilusão medirmos nossa popularidade pelas redes. Aqueles que
pensam que só têm amigos em redes sociais ainda não perceberam que os amigos
reais praticamente não existem. Os amigos reais, as verdadeiras amizades, não
se vivem virtualmente.
Resolvi viver. E qual a surpresa?
Não existe desvantagem nisso. Um dia acordei e resolvi: “vou deletar
tudo”, “quero viver tudo ‘ao vivo’”. Inicialmente, cheguei a sentir uma
dor no coração por zerar tanta coisa. Mas, assim que acabei de apagar tudo,
senti certo alívio. Perdia horas, todos os dias, procurando acabar com pequenos
focos de incêndio que aconteciam aqui e ali. Quando percebi que não precisaria
mais ficar dando satisfações ao mundo, foi como se um peso enorme saísse de
minhas costas. Então tudo ganhou nova cor, nova vida. Aqueles que não posso ver
pessoalmente, falo pelo MSN. Estes eu sei que realmente são meus amigos.
Dessa maneira, dá para controlar onde se pisa. Passei a viver melhor. Não
sinto falta. Perdia muito tempo. Agora uso esse tempo para estudar, escrever e
planejar coisas interessantes. A vida é curta, não quero ficar parte dela
diante de uma tela de computador.
Não acho salutar emitir opiniões sobre
pessoas a quem quer que seja, principalmente falar coisas negativas. Tenho
minha maneira de pensar e respeitar todos que me cercam. Sou muito aberto,
converso com todos. Gosto de ver as coisas com olhar construtivo e otimista.
Foi assim que consegui construir uma série de coisas na vida. Existem pessoas
que têm antipatia por mim sem nunca haverem trocado uma palavra comigo. Eu
talvez nunca as vá conhecer e elas talvez nunca tenham oportunidade de me olhar
de frente e dizer: “Jorge, o que te motivou a fazer tal coisa na vida?”, para
saber exatamente que conduta de pensamento eu assumi. São pessoas que, independente
do que se diga, não mudam de opinião, porque estão presas a opiniões
preconcebidas. Não tenho o que fazer em relação a isso.
Quando me perguntam o que acho de
alguém, prefiro não emitir opiniões. Não falo mal de ninguém. Todos aqueles que
me conhecem sabem disso. Não sou puro,mas não sou falso, apenas procuro
ser autêntico sem macular a imagem de ninguém.
Finalizando, em nenhum momento da minha
vida deixei de querer ser eu mesmo. Nenhum. Como diz uma música de
Caetano Veloso, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Se
morresse hoje, sei que, fiz tudo o que tive vontade na vida até o
presente momento. Para aquelas pessoas que mereciam, falei o que gostaria
de ter falado. A elas disse palavras que vieram do fundo de minha
alma. Algumas poucas para as quais me calei, não mereciam minha palavra,
nem mesmo o meu olhar.
Não vejo desvantagem em ser assim.
Aliás, muito pelo contrário. Sinto-me feliz e realizado na vida. Quando me
deito à noite, durmo tranquilo e acordo leve todas as manhãs.
12- Ana
Botafogo disse uma frase que sempre me faz refletir: ‘’Mais importante do
que entrar em cena, é saber
o momento de sair de cena.’’ Como
você lida com bailarinas que, digamos, já não estão em sua melhor forma – seja
ela física, criativa ou de conduta – e não percebem que poderiam ‘pendurar as
sapatilhas’? Você, como diretor do elenco da casa, dá essa dica? No caso de
bailarinas que não são da casa e você não dirige, como é o seu olhar para essas
profissionais, que, tendo tão pouco a oferecer, não percebem isso ou que o
tempo delas já passou?
Mais importante do que conquistar qualquer coisa na vida ou
qualquer posição almejada é também desenvolver um bom senso acima da média. E
isso só se conquista com princípios. Todos nós temos livre arbítrio, mas muitos
não conseguem saborear o que é viver em equilíbrio, tomando as decisões certas.
Vivem a maior parte do tempo sem objetivos e sob tensão, vítimas da ansiedade e
na expectativa do que precisam fazer e não fizeram. Quando você vive focado,
tantas coisas inutilizáveis - “resíduos inúteis na nossa vida” - deixam de ter
importância. Você acaba tendo tempo para cultivar valores e olhar as pessoas
com outros olhos.
Por que falo tudo isso? Simplesmente porque existe um tempo para
tudo na vida. Se somos pessoas centradas, naquilo que desempenhamos de melhor,
precisamos saber que tudo nasce, cresce, desenvolve-se, reproduz, decai e,
finalmente, morre. Precisamos saber dosar este tempo; caso contrário, não
saberemos envelhecer, acharemos que temos 18 anos a vida inteira. Quem
não gostaria de ser assim? Podemos ser jovens internamente a vida toda, mas
nosso corpo não responde da mesma forma. Num mundo real, você não vê
alguém posando para uma revista Playboy com 60 anos de idade. Por quê? Primeiro
porque ninguém compraria a revista, e segundo porque, normalmente, as pessoas
não procuram manequins dessa idade, ainda mais num mundo em que o
profissionalismo está ligado puramente à estética. Nada impede que tenhamos uma
atividade paralela, mas o nosso tempo se esgota e precisamos saber a hora de
parar, antes que nos parem. Para que o mundo não nos dê uma invertida ou
diversas invertidas, é preferível que saibamos exatamente qual a hora de sair
de cena. Mas isso é uma decisão pessoal de cada um.
Existem pessoas para quem o tempo já passou, mas que ainda detêm
um carisma muito forte. Elas permanecem com o brilho de outrora, mesmo que
visualmente não possam transmitir muito do que foram. Tornam-se figuras
respeitáveis e admiráveis. Tenho em mente muitas pessoas assim. O lugar
delas é em cena, mas não pisando nos palcos. Elas iluminam e inspiram caminhos.
São mágicas. Por elas, existe um carinho todo especial. Algumas são imortais. É
enganoso pensar que a idade as condena.
Precisamos sempre nos lembrar que pessoas de bom senso,
equilibradas e com conteúdo são raridades dignas de profundo respeito e
admiração eternamente.
13- E
em relação a você? 29 anos a frente da Casa de Chá, há momentos em que você
pensa como vai ser
a hora de parar, se essa hora vai chegar? Você tem um sucessor ou sucessora?
Como é a passagem do tempo para você?
Quando realizamos qualquer atividade por 30 anos de nossa vida,
podemos dizer que já passamos da metade do caminho. Eu já teria parado com 10
anos de casa se tivesse um sucessor competente. Por volta de 1992, achei que já
estava cansado do negócio. Mas qual a minha surpresa ao perceber que nem havia
iniciado a jornada? Às vezes, temos a tendência de desistir cedo demais das
coisas, e eu estava assim. Então segui em frente, criando novos projetos e
ampliando horizontes. Não sei exatamente quantos anos terei pela frente.
Posso ter um enfarto e morrer amanhã, como também posso durar mais 40 anos.
Isso seria uma dádiva dos deuses ou uma maldição dos faraós?
A verdade é que a Khan el Khalili é uma ideia genial que deu
certo. Nela há fórmulas que a mantém viva. Para que ela permaneça em
atividade, é necessário respeitar essas receitas. Seria uma pena simplesmente
fazê-la parar por questão de “desistência” ou de falta de vontade. Que rumo
tomaria o mercado da dança sem ela? Bem ou mal, ela é um agente motivador para
muitas pessoas que desejam levar a arte em frente. E eu sou o culpado por isso.
É exatamente nisso que penso quando alguma nuvem paira sobre minha cabeça,
tentando me dissuadir de meus objetivos atuais ou me faz pensar em outra
atividade na vida.
Para mim, o tempo é como uma ampulheta. A hora que desce toda a
areia, viro o equipamento mais uma vez e começo uma nova etapa. Mas,
ainda assim, vai chegar a minha vez.
14- Você
reuniu todas as dicas essenciais no livro ‘Direção e Preparação Artística’, não
esconde nada. Acredito que
é um livro essencial para todas as bailarinas que pretendem ser
profissionais e trabalhar com arte e emoção. Acredita que faltou algo, que algo
ainda pode ser acrescentado? Uma nova edição ou um outro livro temático? Quais
são os seus planos?
Quando pensei que havia reunido todas as dicas e lançado o livro,
percebi que tinha muito mais a escrever, tanto é que já tenho comigo a edição
revista e ampliada com mais 25 tópicos (aproximadamente mais 100
páginas). Mas só sairá na próxima edição. O que existe atualmente no
livro vai suprir muito daquilo que o mercado precisa. Não tenho ainda nenhum
plano em escrever um segundo livro para o mercado. Pode ser que eu mude
de ideia, mas, para o momento, acredito já ter deixado um legado bastante
significativo.
O livro em si já oferece possibilidades para que muita gente
escreva, nos próximos anos, coisas bem interessantes, ampliando a literatura
nessa área.
Atualmente tenho 3 livros em mente, dois dos quais já estou
escrevendo, mas não são na área de dança. Mas minha cabeça é volúvel com
relação a projetos. Nada impede que amanhã eu acorde com vontade de
escrever algo novo para este mercado. Algo criativo, que possa revitalizá-lo
ainda mais, como foi o Livro de Direção.
15- Habib,
obrigada pela entrevista. Você é o primeiro convidado a ter duas entrevistas na
mesma seção. Encerre
com uma mensagem de incentivo às bailarinas, por favor. Obrigada por tudo!
Para mim, é uma honra imensa poder ser entrevistado para você.
Obrigado pela confiança e deferência. Há muitos anos, percebo que você é uma
pessoa bem intencionada, com coerência de ideias, criativa e, principalmente,
com visão de longo prazo. Isso é fundamental para quem deseja caminhar
profissionalmente.
Gostaria de dizer que este mercado ainda pode crescer muito. Sendo
bailarina ou tendo outra atividade que proporcione dimensioná-lo futuramente,
ele lhe reverterá uma hora. Dependemos apenas da qualidade do trabalho que
desempenhamos. Se não municiarmos nosso intelecto, fatalmente não chegaremos a
lugar nenhum. Vi tantas bailarinas que nadaram, nadaram e morreram na
praia, exatamente porque pensaram que sua carreira não teria fim. Elas negligenciaram
a questão de se situar no mercado com outras pessoas. Não souberam fazer a
propaganda pessoal nem valorizaram as grandes possibilidades quando as tiveram
em mãos, e, mais do que isso, negligenciaram elas mesmas quando não investiram
em si intelectualmente. Pensaram apenas no agora. Mas os anos passam rápido,
num estalar de dedos. Quando se acorda, tudo já se foi.
Para aquelas que sonham em viver da arte, saibam que o prazer em
realizar é fundamental para aquilo que fazem, mas nada vai verter láureos sem o
devido preparo emocional. Não se deixem levar por uma personalidade frívola,
leviana, sem visão de futuro. Aquelas que não vencem o mal da inveja, da boa
maneira em conviver com os feitos e progressos de outras pessoas, que vivem do
oportunismo e de atitudes interesseiras, têm um longo trabalho pela frente.
Frear o ego inflado, aprender a lidar com críticas, ser mais paciente e bem
humorada também faz parte do contexto.
O mundo atual, diante de tanta velocidade tecnológica, não
consegue definir qual é o tipo de vida ideal para o ser humano. As
profissões estão sempre se desmembrando e criando novas possibilidades de
especialização. Não procure ser o que o mundo tenta induzir que você seja.
Procure encontrar sua própria receita de vivência. Seu estilo peculiar de
satisfação. Conheça seus desejos e saiba os que são reais e podem lhe trazer
frutos, descarte aqueles que lhe iludem, a ponto de abalar seu prumo.
Respirar dança tem um tempo. No tempo seguinte você colhe
tudo o que plantou com o respeito das pessoas que conheceu e a seriedade com
que conduziu sua jornada. Muito pode ser feito na carreira, principalmente,
prolongá-la. Quem respeitou tudo e todos durante a vida sempre terá o que
ensinar para muita gente.
Sempre que achar que tudo está perdido, lembre-se daquela frase
mágica: “se sobrar uma única brasa, farei novamente uma fogueira”.
Abraços a todos e sejam felizes! Vejo vocês na Khan el Khalili!