JORGE SABONGI

 

 

 1-   Jorge, neste ano a Khan el Khalili celebra 29 anos de funcionamento, coroada de sucessos, e, agora, não mais apenas como ‘a casa da arte da dança do ventre’, mas também como referência em direção artística, espetáculos anuais de dança, presença em programas de TV, restaurante e cafeteria. Você imaginava essa multiplicidade de sucesso? Como analisa a trajetória da casa?

Primeiramente gostaria de agradecer novamente a oportunidade de participar das entrevistas de seu site. É sempre um grande prazer, porque você realmente tem uma capacidade absurda de elaborar perguntas pertinentes e abrangentes para cada um em especial.

Voltando à pergunta, quem ouve palavras assim, tem a impressão que, em todo esse tempo, houve apenas láureos. É preciso lembrar que, durante esse período (quase três décadas), passamos por todos os tipos de intempéries. Vivenciamos todos os planos econômicos. Esse reconhecimento veio de um trabalho focado na prosperidade, apesar de todas as dificuldades. O mundo capitalista não é estável, é cíclico, o que nos obriga a aprender a conviver com momentos bons e outros não tão bons assim.  Observando sob esse prisma, é natural reconhecer que empresas passam por muitos fortuitos ao longo de sua existência.  Ninguém está seguro, nem as multinacionais estão salvas.  A capacidade de se manter vivo e operando está diretamente ligada à habilidade em criar vantagens e possibilidades competitivas, mesmo quando a situação parece não ter mais solução. Em outras palavras, nunca desistir. E foi assim que reconstruí a Khan el Khalili, muitas vezes, desde o zero.  Tenho um lema comigo:  “se sobrar uma ‘brasinha’, eu faço novamente uma fogueira”. E assim foi.

Em 2009, houve uma crise sem precedentes em todo o mundo. Ninguém passou ileso. Muitos de nossos fornecedores, infelizmente, deixaram de existir. Tivemos que preparar tudo para um novo momento, como uma lagarta que entra no casulo para se reconstruir e se transformar numa borboleta.

O ano de 2010 foi realmente um ano muito próspero para a viabilização de diversos projetos que estavam engavetados durante muitos anos. Criamos um “impulso” e fomos no embalo. Mudamos muita coisa, melhoramos o que acreditávamos ser viável e excluímos o que não representasse retorno garantido. O resultado é que, agora, estamos colhendo os resultados do trabalho que empreendemos arduamente durante 12 meses.

Os anos também me ensinaram a ser bastante paciente com os resultados. Nada acontece sem empenho e tudo tem um tempo de maturação. É preciso dominar a ansiedade quando muita coisa anda junto ao mesmo tempo.  E eu tinha esta ansiedade bastante arraigada nos primeiros anos.  Com o amadurecimento, pude observar as coisas com mais cautela e visão de futuro.

Tudo o que temos nessa fase boa é o resultado desse trabalho. Não quer dizer que vai perdurar para sempre. Seria muita ingenuidade minha acreditar que tudo se mantém eternamente em suspensão. São fases e esta fase é de grande progresso. Temos que entender que, comercialmente, existem períodos de alta e de baixa. E não tenha dúvidas: todos sentem isso na pele. A grande diferença é a sua determinação em vergar e não quebrar, sempre. Realinhe as diretrizes e, se precisar, tenha a ousadia de procurar novos caminhos possíveis.  O mundo não para, o que é hoje muito bom, amanhã poderá ser “nem tanto”.  Em cada época da KK, eu promovi os ajustes e realinhei as diretrizes para continuar caminhando e desenvolvendo novos rumos. Este é o segredo da longevidade que conquistamos.

Ademais, nunca primamos pela economia de qualidade. Tudo o que fazemos deve ser bem feito e visando a  oferecer o melhor. Não dá para ser meio termo. As pessoas percebem. Tem gente que negligencia isso e subestima a inteligência de seu público. Nunca foi nosso caso.

 

2- Com o lançamento do livro ‘Direção e Preparação Artística’, você saiu dos ‘bastidores’ e foi alçado a ‘guru’ de muitas bailarinas, que ainda não conheciam essa sua faceta de diretor artístico. Como tem sido esse processo de entrevistas, eventos, workshops, já que você sempre foi discreto e muito observador. Como é estar sob os holofotes?

Continuo sendo discreto e observador. Estar onde estou é bom e, ao longo dos anos, felizmente, consegui não deixar que nada subisse a minha cabeça. Quem me conhece sabe que permaneço o mesmo, independente do que me aconteça de bom.

Meu trabalho sempre foi e continuará sendo nos bastidores, tanto é que minhas aparições em público são poucas. Na verdade, gosto pouco de aparecer. Não porque sou tímido, mas porque minha realização é outra: está fincada na questão de construir pessoas; torná-las melhores; desenvolver lados dos quais elas sequer sabiam que existiam; mostrar que elas podem mais, que isso é apenas uma questão de preparo e de determinação, de “direção” para dizer a verdade. Desde o início dessa jornada, estabeleci que meu trabalho seria construir estruturas para que a dança fosse dignificada como “arte” e é essa minha bandeira. Pode parecer piegas, mas esse sempre foi meu objetivo. Vou atrás dele enquanto estiver em atividade.  Minha realidade é desenvolver e cultivar a fantasia, vender sonhos por trás da dança árabe, pavimentar estradas emocionais que tornem a dança um espetáculo digno de ser apreciado e levado na memória. Sempre foi isso.

Nunca dei asas as minhas aparições. Sempre trabalhei nos bastidores, quieto, estudando cada possibilidade de melhorar a questão cênica e a imagem ou o marketing de alguém. Na Khan el Khalili, consegui fazer com que o público sentasse e apreciasse, com respeito, a dança, a bailarina e a mulher.

O “ensinar tudo o que sei” veio à tona através dos cursos e workshops. Inicialmente algumas pessoas ficavam indignadas: “o que ele vai ensinar se não é bailarino?” ou “o que ele sabe de dança do ventre para dar aulas?” O tempo provou que, nesses anos, eu também aprendi muito sobre este assunto e sobre muitos outros, a ponto de poder passar adiante, sem receio, inclusive apresentando novos paradigmas para um mercado que já se apresentava fossilizado em termos de ensino.  Na verdade, podia oferecer muito mais do que imaginavam.  Enquanto muita gente estudava as mesmas coisas durante anos, eu lia muitos livros e vivia pessoalmente a situação de dezenas de bailarinas que precisavam de incrementos e de melhorias em seu desenvolvimento.  Como observador do comportamento humano, e com toda discrição, eu desenvolvia maior percepção cênica e de público.  Foi, então, que resolvi colocar isso num livro. Uma forma de deixar uma herança à dança e a todas aquelas que ainda vão se apaixonar por este universo.

A ideia principal seria que ele pudesse não apenas mudar conceitos, mas reestruturar este mercado a médio e longo prazo. Todos os dias, observava muita gente boa desanimando e saindo definitivamente de cena.  Ao final, percebi que poderia escrever muitos livros sobre este assunto, mas preferi deixar outras cabeças participarem, nos próximos anos, desta empreitada. A idéia é que, nos próximos 5 anos, possamos ter pelo menos 50 livros nacionais bem escritos, que desenvolvam mentes e ampliem fronteiras. Assunto existe, mas é preciso pesquisa.

Um livro, quando bem direcionado, confere notoriedade.  Quando não, coloca seu autor em condições delicadas. Já li centenas de livros, que me fizeram admirar muito seus autores. Tenho diversos mentores (minha cabeça não anda só), aprendo com eles e aplico muita coisa interessante no meu trabalho. Meus feitos não são apenas fruto da minha experiência de vida, mas também de um conjunto de inteligências paralelas.

Os holofotes estão sim acesos nos bastidores neste momento. Mas isso não me tira o esteio. Permaneço com a mesma atenção que tinha com todos. Aprendi a dosar minhas aparições, mesmo sabendo que os resultados do livro estão apenas começando. Gosto de ouvir os comentários das pessoas sobre o Livro de Direção. Todos os dias têm novidades. De alguma forma, ele tocou em muita gente. Cada capítulo tem seus admiradores, gente satisfeita que sempre tem um elogio de gratidão. Para mim, esta é a melhor forma de realização: poder sentir que contribuo para o bem.

Entrevistas e programas na mídia são apenas uma consequência de todos os esforços empreendidos.

 

 3-Algo muito peculiar no livro é a ênfase na emoção. O tripé da dança do ventre (técnica, estética e emoção) fez com que antigos conceitos caíssem por terra e, se antes a maioria pensava que o grande segredo eram quadris potentes, hoje se articulam em busca da ‘emoção’ na dança. O que tem a dizer sobre isso?

Nas últimas décadas, um dos maiores problemas no aprendizado da dança foi o ensino baseado na cópia de professoras e bailarinas famosas da geração mais recente (principalmente egípcias). Todo mundo queria aprender a dançar como sua professora ou como a bailarina “x”. Então, se admiravam uma professora ou determinada bailarina, não filtravam o que havia de melhor, fechavam os olhos e se atiravam a copiar.  Deixar as alunas serem suas cópias fiéis não só preenchia o ego das professoras como criava um monte de “clones” mal feitos e mal-acabados. Isso quando a professora realmente era uma boa bailarina(!!!); se não era, o resultado podia ser considerado uma decepção elevada ao quadrado. Só que o que vale para uma não vale para outra. O aprendizado da dança não é como um calçado de número 36 que vai servir no pé de milhares de Cinderelas.  Alguém precisava dizer a essas mulheres que cada uma é cada uma. Cada bailarina tem seu estilo próprio.  Só que as próprias professoras não sabiam extrair o estilo próprio de cada uma, pois enchiam a sala de aula sem se importar com os resultados de seu empreendimento. Os números falavam mais alto.

Pior ainda, ninguém sequer sabia como trabalhar o emocional de suas alunas, para aliá-lo à dança. A dança não tinha um “tripé”, tinha duas pernas: técnica e estética. Surgiam então os “clones robotizados”, as “bailarinas-chlichês” que não traziam o sonho à realidade (essa antítese ficou legal, heim?).

Foi então que resolvi ensinar tudo isso nos cursos e workshops e, por fim, coloquei no livro. Já tinha a noção de como preparar bailarinas. Criei uma biblioteca específica sobre o assunto.  Agora a ideia era mostrar como criar esta possibilidade: a teoria deveria se tornar prática. E foi o que aconteceu. Quem fez o Curso de Direção percebe em si mesma a diferença, a bailarina antes e depois do curso.

A dança árabe está ligada principalmente ao trabalho dos quadris. A sincronia e a tranquilidade em dançar com precisão. Não com força, mas com delicadeza e naturalidade. Sem esforços que prejudiquem a saúde. Mas não é só isso. Onde fica a emoção da melodia?  Como determinar os humores sem parecer artificial? Como dançar adequadamente dentro do tempo musical (sem se perder ou denotar preocupação) numa música que se alterna o tempo todo? Como continuar sendo você mesma sem imitar ninguém ou parecer que está “forçando a barra”?

Quem assiste a uma dança expressiva jamais vai assistir a uma dança mecânica sem ficar perplexo(a).  Assim, o livro e os cursos cumprem seu papel: mudar conceitos, criar ideias e ampliar a visão sobre a importância da emoção.

 


4-Vamos falar de Pré-Seleção. Eu participei em 2010 e pude ver de perto a seriedade, organização e eficiência de todo o processo. Como é, para você, estar a frente da Pré e participar de maneira tão intensa e dedicada de toda a organização; ver tantas bailarinas com características diferentes; a ansiedade e emoção do grupo...fale sobre isso.

O trabalho da Pré é imenso, mas me incorporei a ele. Desde 1998, quando me sentei para desenvolver toda a sua estrutura (quase que dois meses após iniciar as Noites no Harém), calculei todas as regras, a organização das datas, as cartas de convocação, o panorama da banca, a divulgação dos nomes, os certificados, enfim, tudo isso foi uma iniciativa visionária, para criar, a longo prazo, um mercado com melhor qualidade de dança.

Organizar um evento como este sempre requereu uma dedicação ímpar. Tenho minhas dúvidas se alguém faria isso com tamanha ênfase e persistência neste país. Para fazer algo como a Pré-Seleção, é preciso gostar muito daquilo que se realiza. É querer ver o progresso de pessoas que você nem conhece e que ainda estão em estágio embrionário; transformá-las, trazer para fora o talento que ainda não desabrochou. Como um filho que você ensina a andar segurando uma cordinha, para que ele a agarre com as mãos e se equilibre, a fim de dar os primeiros passos. É isso, é um filho. Exatamente isso. E filhos, você sabe, cada um tem uma personalidade diferente. Cada qual tem suas habilidades, seu carisma e seu brilho todo especial. Também têm suas dificuldades, suas carências e seus medos.

Existe um detalhe muito interessante nas avaliações que faço na Pré. Quando assisto aos vídeos das bailarinas, tenho três possibilidades: 1) SIM, vai para a banca 2) NÃO, não vai para a banca e 3) TALVEZ vá. Um detalhe muito importante é que não assisto apenas com o intuito de encontrar erros, mas sim as possibilidades de melhorias que vão determinar a presença ou não de talento. Quando assisto a alguém, consigo ver esta pessoa 5 anos mais tarde. Portanto, muitos casos de “TALVEZ” eu mando para a banca sem receio, porque acredito na possibilidade de melhorias em médio prazo (isso se a bailarina for bem encaminhada). Sempre defendi a tese de que a Pré-Seleção jamais poderia ser um “mata talentos”. Ela representa algo de idealista, de visão de futuro e de carinho pelas pessoas.

Aquelas que participam da Pré recebem toda a atenção possível, na avaliação inicial, na preparação um dia antes, no dia do exame e após os resultados.  Sempre que converso com aquelas que participam, digo de coração que gostaria que todas realmente passassem, que mostrassem o seu melhor, sem receio de deixar o emocional tomar conta e causar desequilíbrio. A ideia de alçá-las para o vôo é algo que não tem preço. Acredite se quiser, quando elas entram em cena eu torço por cada uma, pois sei que ali existe um sonho.  Também, um dia antes de sair o resultado, eu fico eufórico, agitado, ligado no 220, como um estudante de vestibular. É como se eu estivesse esperando para ver se “eu” fui aprovado também. Consigo sentir a mesma emoção que elas sentem, com aquela ansiedade louca de esperar ver sua foto publicada como aprovada no site. Pode parecer esquisito, mas eu sinto isso. Tanto é que, quando não dá pra segurar a emoção, solto o resultado antes da data marcada. A ansiedade é minha também.

 

       5- Ainda pensando na Pré, já houve casos de bailarinas que, perante a Banca não apresentam um bom desempenho, mas, no show a noite, no Harém te surpreenderam com a desenvoltura, expressão ou algo especial?

Na verdade, a apresentação que elas fazem nas Noites no Harém depois do exame da Pré é mais uma festa, um momento de descontração depois de um período de tantas expectativas, estudos, impaciência e apreensão. Tanto é que normalmente as músicas são mais tranquilas. Utilizamos músicas baladi exatamente para fugir de toda aquela seriedade com uma música cheia de complicações e exigências. É uma festa em homenagem a todas elas. Dançar para um público seleto, quem não deseja isso?

Assim sendo, quando elas dançam nas Noites no Harém, a desenvoltura, a expressão, a malícia sempre tendem a aparecer com mais facilidade, favorecendo o desembaraço, pois não existe a necessidade de concentração acirrada nos momentos diferenciados da música, como é o caso de uma música clássica. Numa música baladi, basta manter a pulsação rítmica que o restante do corpo e o rosto soltam-se matreiramente. Não exige grandes esforços das articulações. A surpresa com a desenvoltura é durante o exame, não na festa. A festa é uma grande curtição para todos.

 

      6-  Nos cursos e workshops, como é lidar com os diferentes níveis de aceitação acerca de correções e observações que você faz para as bailarinas? Há casos em que você percebe que a bailarina ainda não esta pronta para ser dirigida? Se sim, como vê o futuro dessa ‘profissional’?

Esta pergunta é bastante interessante (não que as outras não sejam). Todas as vezes que inicio um Curso de Direção, explico a todas como será o procedimento das dinâmicas que iremos aplicar, como será o aprendizado e como iniciaremos um processo para aguçar a percepção. Mais do que isso, deixo claro que uma mudança brusca irá acontecer e que, ao final, elas irão se surpreender com elas mesmas.  De cara, deixo claro que não deve haver inibição.  Tem gente que pergunta: “mas eu vou ter que dançar para o Jorge?”, respondo logo: “vocês vão cansar de dançar comigo olhando, portanto, vão se acostumando”.  Quando estamos lá pela 5ª dinâmica todo mundo já se sente em casa. Todas ficam surpresas: como se sentem à vontade!  Mostro a elas, por a + b, que não sou um bicho papão. Minha função é de orientador e facilitador daquilo que elas já sabem, não de um inquisidor.  Mais que isso, sou um “extrator” de habilidades, trabalhando individualmente as características de cada uma.

Existem casos em que a bailarina não está acostumada a ouvir críticas. Estão habituadas a serem paparicadas, bajuladas, muito elogiadas e acreditam que não têm “tantas coisas assim para melhorar”.  Acreditem, todas (absolutamente todas) têm muuuito a melhorar. Independente da experiência que tenham, podem ficar ainda mais surpreendentes. Não conheço bailarina que não necessite de “direção”; basta tocar nos pontos certos e dizer exatamente como é o caminho a ser aperfeiçoado. Quando elas percebem que podem, instantaneamente, corrigir muita coisa (a partir de uma boa crítica e da noção de que estão fazendo algo descabido) e, principalmente, que nunca ninguém havia lhes falado por receio ou mero desconhecimento, elas assumem outra postura no aprendizado e ficam ansiosas para fazer mais. Aí se tornam outras pessoas, pois baixam a guarda. Ao final, parece um time de futebol, todo mundo entrosado, aprendendo umas com as outras, sem medo de se ater a comentários nocivos; todas falando a mesma língua e fazendo tudo como uma gostosa brincadeira. O curso produz repentes bastante interessantes. Mas é preciso muito tato. Para mim, é um agradável exercício de habilidade com as palavras.

Não tive nenhum caso, em todos os cursos e workshops que ministrei até hoje, de alguém que não se dignasse a ouvir uma sugestão de direção. Inicialmente pode até surgir uma expressão de receio ou desconfiança, mas, à medida que as horas vão se passando, elas vão se ambientando, o panorama muda de figura e tudo fica fácil.

Percebo que muita gente neste mercado não gosta de ouvir, porque não dá credibilidade à maioria das pessoas. Uns não respeitam a opinião de outros(as). Tudo é visto com desconfiança e antipatia.  Saber ouvir é um exercício de humildade.

 

 7- A sua participação e da equipe de bailarinas da Casa de Chá em programas de TV e especiais gravados na casa são em grande numero. Como é transitar por esse outro universo, o da televisão? Há algum artista que poderia ser citado, que chamou sua atenção em relação ao trato com as bailarinas, respeito e humildade?

Eu pessoalmente não gosto de televisão por uma simples razão: é tudo uma tapeação. Aquilo que você pensa que é um fato real, é tudo armação maquiada, tudo combinado, ajeitado para ficar melhor à maneira deles. Não existe realidade, é tudo virtual, criado para iludir o telespectador. Não compartilho com esse tipo de divulgação. Na verdade, mais recuso que aceito.  Por um simples motivo: não existe o respeito devido.  Quando percebo que não irá trazer repercussão positiva, que não existe confiabilidade na matéria ou em quem apresenta, evito expor nossa equipe e nossas bailarinas, recuso mesmo.

Alguns apresentadores são dignos de muito respeito, pois são os mesmos na frente ou atrás das câmeras. É o caso do Ronnie Von, da Katia Fonseca e de outros poucos.

 

8-Algumas pessoas comentam que Kahina é a nova estrela da Casa de Chá. Eu sei que você não gosta desses títulos e que cada ano traz sua nova estrela. Mas como analisa o surgimento de verdadeiros ícones da dança na casa e, ainda que você não goste vou pedir: cite as 5 bailarinas de seu elenco que você acredita que estejam em um momento especial de suas carreiras.

A Casa de Chá sempre teve muitas estrelas. Todas convivem e progridem juntas. Algumas sobressaem mais que outras em determinados momentos. Isso não quer dizer que elegemos alguém em especial.  Quem elege é o público e essa eleição também tem tempo certo.

Kahina para mim é a bailarina da década. Ela conquistou uma legião de fãs como poucas conseguiram fazer neste Brasil. São diversos os motivos: é carismática, linda, tem um corpo escultural, é séria no que faz, organizada, sempre elabora uma boa produção de figurino, dança com extrema destreza e qualidade.

Os ícones surgem porque são verdadeiros talentos.  A música pulsa dentro deles fazendo com que a emoção flua por todos os poros. Isso vem de nascença, não tem como forçar. No livro, cito que existem diversos tipos de bailarinas. Os ícones são os tipos com talentos especiais.  Não basta colocar nas mãos de talentos apenas a melhor das técnicas em dança árabe. Eles precisam de mais, precisam de um trabalho de “direção”; um norte de alicerces emocionais e comportamentais de cena; noção de presença artística e de como induzir sentimentos visando à segurança e à presença de palco. Aí sim, ele terá muito do que despertar no público. Então, temos o tripé formado.

O ano de 2010 já nos mostrou muitos desses talentos que estão despontando, exatamente por terem esse preparo. Acredito que em 2011 teremos muitas surpresas, pois a procura pela melhoria do desempenho tem se tornado exponencial na Casa de Chá.

Na Khan el Khalili, existem muitos casos de bailarinas que estão em momentos especiais de suas carreiras. Poderia citar muitas, não apenas 5.  Não tenho predileções, nem posso. Existe uma realidade crua. Minha visão comercial define que existem bailarinas que “chamam público” e “bailarinas que não chamam público”. Entenda-se que “chamar público” representa aquelas que conquistam uma plateia fervorosa imediatamente, fazendo-a pensar em retornar breve a Casa. Tenho que me ater a questões como esta. Deixo que o próprio público tire suas conclusões e suas preferências.  Minha tarefa é canalizar os shows para que sejam apreciados.

Não costumo citar nomes para evitar especulações. Citar 5 nomes seria injusto com tantas outras que também estão no seu “momento de luz” ou que caminham para ele. Seria criar um sentimento de desconforto para todo o grupo. É preciso lembrar que, mesmo que eu fizesse uma lista, esta relação seria dinâmica, mudando 6 meses depois. Muitas estão em ascensão. O mercado está criando um novo impulso. Dezenas de novos talentos estão surgindo e se aperfeiçoando.  É natural, pois nosso país é imenso e tem lugar para muita gente brilhar ainda, seja em São Paulo, seja em qualquer outro Estado. A dança precisa se expandir não apenas em nosso estado.

Para nós, um referencial sobre o crescimento e surgimento de novos talentos é a Pré-Seleção. Nunca teve tanta gente querendo participar como agora. Tanto é que já estamos fazendo reserva de vagas para aquelas que vão à banca só no segundo semestre de 2012.

 

9- Após quase 10 anos, ‘O Clone’ voltará a ser exibido. Na primeira vez, meados de 2001 e 2002, a novela foi uma 
das grandes responsáveis pelo ‘boom’ da Dança do Ventre no Brasil, nós sabemos as consequências positivas e negativas que isso trouxe. E agora, com o atual mercado, como você acha que será ‘O Clone’ revisitado?

O Clone deixou diversas lições para todos nós. A principal delas é que “tudo o que sobe, desce”. Não podemos ser ingênuos em acreditar que uma “bolha de consumo” irá perdurar indefinidamente. Muitos que se atreveram a alçar vôos exagerados naquela época tiveram grandes decepções quando se encerrou a novela.

É preciso atentar para alguns pontos específicos na reapresentação da novela:

* ela não estará passando num horário nobre como na primeira vez. Logo, o pico de audiência, que era anteriormente beirando os 50 a 60%, deve baixar para 25 a 30%;

*  assim, não atingirá uma parcela tão grande da população, mas sim aquelas pessoas que ficam à tarde em casa: senhoras, crianças e mulheres que não trabalham fora;

* deverá atingir também pessoas que estão em trânsito por consultórios médicos, salões de beleza, salas de espera;

* Para quem dá aulas, este é o segmento que “O Clone” tende a insuflar nos próximos 5 meses, o que não deixa de ser um público específico e bastante interessante, pois não é exatamente o público que busca desempenho profissional:  são fiéis e, quando gostam, permanecem por longo tempo (principalmente depois que a novela acabar);

* por não ser uma novidade e sim uma repetição, vem com uma tarja de nostalgia, sem causar grandes frissons. Oscar Wilde dizia “você jamais pode repetir uma emoção”. Portanto, não se iludam: não será tão promissor como antes;

*  atingindo um público caseiro, é preciso lembrar que muitas dessas mulheres, dificilmente costumam sair de casa, pois estão atreladas aos afazeres domésticos. Pode ser que dê um boom, como também pode ser que não; ainda é uma incógnita. Só saberemos a partir de março ou abril, quando já estará nos dois últimos meses da novela;

* de qualquer forma, pelo sim ou pelo não, é bom deixar uma estrutura pronta para receber um público afluente que tenderá a fazer aulas, pelo menos enquanto a novela durar no ar.

*  lembre-se que uma “bolha de consumo” tende a murchar. Portanto, estejam preparados para mais uma baixa da dança no final da novela;

*  o público de senhoras é praticamente inexplorado neste mercado. Elas tendem a permanecer ativas nas aulas, mesmo quando passar a febre, mas é necessário desenvolver um trabalho bem feito, não apenas pensando quantidade, no aspecto financeiro. Muitas serão “cativas”, no sentido de encararem a dança como um complemento para suas necessidades, principalmente as psicopessoais (elevar a autoestima, sentirem-se belas, ter nas aulas um refúgio agradável para suas vidas, fazer boas amizades, e ter a alegria de viver por serem mulheres).

Na primeira vez, quando a novela terminou, tivemos que implementar uma propaganda maciça para manter o público cativo. Mesmo assim, houve um período de baixa.

 


 

10-  As ‘Noites no Harém’ no teatro tornaram-se o evento mais esperado do ano por todas as apreciadoras da arte. 
Há um gama de itens, como iluminação, figurinos, trilha sonora, elenco que tornam o evento um verdadeiro espetáculo. Mas, pelo país afora, infelizmente nem todos os eventos têm essa qualidade. Muitas vezes pela precariedade da estrutura em si, mas, na maioria, pela desinformação ou desinteresse dos organizadores. Você poderia falar sobre a necessidade de diferenciar espetáculos de festivais, arte de entretenimento? Ou acha que há eventos que podem ser mais simples, despreocupados com o caráter ‘Arte’?

Quando realizamos um evento, é preciso ter em mente que tipo de público se deseja atingir. Temos diversos tipos de eventos: os profissionais, os amadores, os concursos que mesclam ambos (e, portanto, quem vai pode esperar encontrar de tudo), os festivais que são uma miscelânea de coisas boas e não tão boas assim (quando não deveriam), as mostras específicas, as festas de aprendizes, as festas beneficentes... a lista é imensa. Vê-se que muitos deles são mistos.

Um evento misto, isto é, com amadores e profissionais, geralmente perde muito de sua caracterização como elemento de encanto, pois apresentações iniciantes não traduzem as expectativas do público, exceto se forem para prestigiar alguém da família ou a amiga que está dançando. Aí sim eles vibram quando esta pessoa, mesmo sem o perfil exigido, pisa em cena.  As pessoas que saem de casa buscando um espetáculo de arte desejam presenciar algo que enalteça sua vivência. Não querem uma imitação da realidade. Elas querem sonho. Então chegam a um evento e veem muita gente (que não teria condições de estar pisando num palco) tentando, em vão, concretizar o sonho que elas trouxeram consigo. Isso confunde e frustra o espectador, fazendo-o se questionar se deveria estar ali mesmo ou se valeu a pena ter saído de casa.

Quem realiza o evento (aquela pessoa responsável pela organização, pela direção em si) tem que saber exatamente quais são as necessidades desses eventos. Espera-se em festivais, por exemplo, que tenham, pelo menos nos shows principais, algo extremamente gabaritado. Quando não existe um critério rígido para traduzir isso, as pessoas têm a sensação de que foram iludidas.  Resultado: perde-se credibilidade.

Muitas vezes somos impelidos a colocar nos palcos atrações que não deveriam ou não mereciam estar ali, pelos mais diversos motivos: falta de talento dos componentes, descuido com o figurino, ausência de compromisso com os ensaios, grupos assimétricos ou desarmônicos, pobreza coreográfica.

Fora a falta de conhecimento na elaboração de espetáculos, existe também o descuido daquilo que se deseja apresentar, que, por questões de política interna, acabam gerando protecionismo na hora de definir quais são os números que serão apresentados.  Produzir um espetáculo requer critérios e pulso. Nem sempre quem produz tem a simpatia de todos, porque não se rende a permitir a baixa qualidade.  Não serve, não sobe para o palco e pronto!

Temos que ter a consciência de que, se queremos traduzir a dança árabe como “arte”, é preciso eliminar a possibilidade de frustrar o público com amadorismos. Nesse público existem formadores de opinião que, com certeza, ao apreciarem um evento bem cuidado e rigorosamente impecável, trarão pessoas influentes para alçarem ainda mais a visibilidade da dança.

 

11-   Habib, algo em você que eu sempre admirei é a sua discrição em manter a vida pessoal bem separada do
 ‘show’, do personagem. Tanto pela sua postura profissional quanto pela sua fala coerente, que todas podemos perceber não só nos cursos em SP mas por todo o país, além da decisão de não ter redes sociais e se abster de emitir opiniões negativas sobre as pessoas. Você acha que essa postura traz alguma desvantagem? Já houve momentos que em que você gostaria de ‘não ser’ Jorge Sabongi?

Todos nós que trabalhamos no mundo das artes temos que nos resguardar. Se você tem um personagem, saiba sempre que ele não é real, é fictício. Não pode confundir com sua vida real. Misturar as situações de bastidores fatalmente irá prejudicar a cena num determinado momento. Ninguém que não queiramos precisa tomar parte de nossa vida pessoal. Se permitirmos abertura, teremos um monte de gente dando palpites e se achando no direito de invadir nossa privacidade, simplesmente porque nos tornamos pessoas públicas. Deixamos de ter controle sobre nossas ações e nossa vida.  É preciso ter um crivo muito forte na escolha dos verdadeiros amigos. Pessoalmente, não acredito nas redes sociais, apesar de parecerem indispensáveis na vida moderna.  A notícia é que elas são dispensáveis sim!  Alguns demoram certo tempo para perceber, outros talvez nunca percebam, mas esta é a realidade. Resolvi me excluir dessa modalidade e me sinto mais feliz assim.

Na verdade, já participei de redes sociais, tinha também um Fórum KK que era bem interessante. Era cultural e bastante gente participava. Só que, em pouco tempo, corrompeu-se. Existe um ditado que diz: “ninguém pode colher rosas sem se picar com espinhos”.  Assim, havia muitas vertentes quando administrava meus perfis. É difícil você tentar cultivar coisas interessantes trabalhando simultaneamente com gente do contra. Nessas mídias não existem só amigos, não há apenas gente bem intencionada. É uma ilusão medirmos nossa popularidade pelas redes. Aqueles que pensam que só têm amigos em redes sociais ainda não perceberam que os amigos reais praticamente não existem. Os amigos reais, as verdadeiras amizades, não se vivem virtualmente.

Resolvi viver. E qual a surpresa?  Não existe desvantagem nisso.  Um dia acordei e resolvi: “vou deletar tudo”, “quero viver tudo ‘ao vivo’”.  Inicialmente, cheguei a sentir uma dor no coração por zerar tanta coisa. Mas, assim que acabei de apagar tudo, senti certo alívio. Perdia horas, todos os dias, procurando acabar com pequenos focos de incêndio que aconteciam aqui e ali. Quando percebi que não precisaria mais ficar dando satisfações ao mundo, foi como se um peso enorme saísse de minhas costas. Então tudo ganhou nova cor, nova vida. Aqueles que não posso ver pessoalmente, falo pelo MSN.  Estes eu sei que realmente são meus amigos. Dessa maneira, dá para controlar onde se pisa. Passei a viver melhor.  Não sinto falta. Perdia muito tempo. Agora uso esse tempo para estudar, escrever e planejar coisas interessantes. A vida é curta, não quero ficar parte dela diante de uma tela de computador.

Não acho salutar emitir opiniões sobre pessoas a quem quer que seja, principalmente falar coisas negativas. Tenho minha maneira de pensar e respeitar todos que me cercam. Sou muito aberto, converso com todos. Gosto de ver as coisas com olhar construtivo e otimista. Foi assim que consegui construir uma série de coisas na vida. Existem pessoas que têm antipatia por mim sem nunca haverem trocado uma palavra comigo. Eu talvez nunca as vá conhecer e elas talvez nunca tenham oportunidade de me olhar de frente e dizer: “Jorge, o que te motivou a fazer tal coisa na vida?”, para saber exatamente que conduta de pensamento eu assumi. São pessoas que, independente do que se diga, não mudam de opinião, porque estão presas a opiniões preconcebidas. Não tenho o que fazer em relação a isso.

Quando me perguntam o que acho de alguém, prefiro não emitir opiniões. Não falo mal de ninguém. Todos aqueles que me conhecem sabem disso. Não sou puro,mas  não sou falso, apenas procuro ser autêntico sem macular a imagem de ninguém.

Finalizando, em nenhum momento da minha vida deixei de querer ser eu mesmo. Nenhum.  Como diz uma música de Caetano Veloso, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.  Se morresse hoje, sei que, fiz tudo o que tive vontade na vida até o presente momento. Para aquelas pessoas que mereciam, falei o que gostaria de ter falado.  A elas disse palavras que vieram do fundo de minha alma.  Algumas poucas para as quais me calei, não mereciam minha palavra, nem mesmo o meu olhar.

Não vejo desvantagem em ser assim. Aliás, muito pelo contrário. Sinto-me feliz e realizado na vida. Quando me deito à noite, durmo tranquilo e acordo leve todas as manhãs.

 

12-   Ana Botafogo disse uma frase que sempre me faz refletir: ‘’Mais importante do que entrar em cena, é saber
 o momento de sair de cena.’’
 Como você lida com bailarinas que, digamos, já não estão em sua melhor forma – seja ela física, criativa ou de conduta – e não percebem que poderiam ‘pendurar as sapatilhas’? Você, como diretor do elenco da casa, dá essa dica? No caso de bailarinas que não são da casa e você não dirige, como é o seu olhar para essas profissionais, que, tendo tão pouco a oferecer, não percebem isso ou que o tempo delas já passou?

Mais importante do que conquistar qualquer coisa na vida ou qualquer posição almejada é também desenvolver um bom senso acima da média. E isso só se conquista com princípios. Todos nós temos livre arbítrio, mas muitos não conseguem saborear o que é viver em equilíbrio, tomando as decisões certas. Vivem a maior parte do tempo sem objetivos e sob tensão, vítimas da ansiedade e na expectativa do que precisam fazer e não fizeram. Quando você vive focado, tantas coisas inutilizáveis - “resíduos inúteis na nossa vida” - deixam de ter importância. Você acaba tendo tempo para cultivar valores e olhar as pessoas com outros olhos.

Por que falo tudo isso? Simplesmente porque existe um tempo para tudo na vida. Se somos pessoas centradas, naquilo que desempenhamos de melhor, precisamos saber que tudo nasce, cresce, desenvolve-se, reproduz, decai e, finalmente, morre. Precisamos saber dosar este tempo; caso contrário, não saberemos envelhecer, acharemos que temos 18 anos a vida inteira.  Quem não gostaria de ser assim? Podemos ser jovens internamente a vida toda, mas nosso corpo não responde da mesma forma.  Num mundo real, você não vê alguém posando para uma revista Playboy com 60 anos de idade. Por quê? Primeiro porque ninguém compraria a revista, e segundo porque, normalmente, as pessoas não procuram manequins dessa idade, ainda mais num mundo em que o profissionalismo está ligado puramente à estética. Nada impede que tenhamos uma atividade paralela, mas o nosso tempo se esgota e precisamos saber a hora de parar, antes que nos parem.  Para que o mundo não nos dê uma invertida ou diversas invertidas, é preferível que saibamos exatamente qual a hora de sair de cena. Mas isso é uma decisão pessoal de cada um.

Existem pessoas para quem o tempo já passou, mas que ainda detêm um carisma muito forte. Elas permanecem com o brilho de outrora, mesmo que visualmente não possam transmitir muito do que foram. Tornam-se figuras respeitáveis e admiráveis.  Tenho em mente muitas pessoas assim. O lugar delas é em cena, mas não pisando nos palcos. Elas iluminam e inspiram caminhos. São mágicas. Por elas, existe um carinho todo especial. Algumas são imortais. É enganoso pensar que a idade as condena.

Precisamos sempre nos lembrar que pessoas de bom senso, equilibradas e com conteúdo são raridades dignas de profundo respeito e admiração eternamente.

 

13-   E em relação a você? 29 anos a frente da Casa de Chá, há momentos em que você pensa como vai ser 
a hora de parar, se essa hora vai chegar? Você tem um sucessor ou sucessora? Como é a passagem do tempo para você?

Quando realizamos qualquer atividade por 30 anos de nossa vida, podemos dizer que já passamos da metade do caminho. Eu já teria parado com 10 anos de casa se tivesse um sucessor competente. Por volta de 1992, achei que já estava cansado do negócio. Mas qual a minha surpresa ao perceber que nem havia iniciado a jornada? Às vezes, temos a tendência de desistir cedo demais das coisas, e eu estava assim. Então segui em frente, criando novos projetos e ampliando horizontes.  Não sei exatamente quantos anos terei pela frente. Posso ter um enfarto e morrer amanhã, como também posso durar mais 40 anos. Isso seria uma dádiva dos deuses ou uma maldição dos faraós?

A verdade é que a Khan el Khalili é uma ideia genial que deu certo. Nela há fórmulas que a mantém viva.  Para que ela permaneça em atividade, é necessário respeitar essas receitas. Seria uma pena simplesmente fazê-la parar por questão de “desistência” ou de falta de vontade. Que rumo tomaria o mercado da dança sem ela? Bem ou mal, ela é um agente motivador para muitas pessoas que desejam levar a arte em frente. E eu sou o culpado por isso. É exatamente nisso que penso quando alguma nuvem paira sobre minha cabeça, tentando me dissuadir de meus objetivos atuais ou me faz pensar em outra atividade na vida.

Para mim, o tempo é como uma ampulheta. A hora que desce toda a areia, viro o equipamento mais uma vez e começo uma nova etapa.  Mas, ainda assim, vai chegar a minha vez.

 

14-   Você reuniu todas as dicas essenciais no livro ‘Direção e Preparação Artística’, não esconde nada. Acredito que
 é um livro essencial para todas as bailarinas que pretendem ser profissionais e trabalhar com arte e emoção. Acredita que faltou algo, que algo ainda pode ser acrescentado? Uma nova edição ou um outro livro temático? Quais são os seus planos?

Quando pensei que havia reunido todas as dicas e lançado o livro, percebi que tinha muito mais a escrever, tanto é que já tenho comigo a edição revista e ampliada com mais 25 tópicos (aproximadamente mais 100 páginas).  Mas só sairá na próxima edição. O que existe atualmente no livro vai suprir muito daquilo que o mercado precisa. Não tenho ainda nenhum plano em escrever um segundo livro para o mercado.  Pode ser que eu mude de ideia, mas, para o momento, acredito já ter deixado um legado bastante significativo.

O livro em si já oferece possibilidades para que muita gente escreva, nos próximos anos, coisas bem interessantes, ampliando a literatura nessa área.

Atualmente tenho 3 livros em mente, dois dos quais já estou escrevendo, mas não são na área de dança. Mas minha cabeça é volúvel com relação a projetos.  Nada impede que amanhã eu acorde com vontade de escrever algo novo para este mercado. Algo criativo, que possa revitalizá-lo ainda mais, como foi o Livro de Direção.

 

15-   Habib, obrigada pela entrevista. Você é o primeiro convidado a ter duas entrevistas na mesma seção. Encerre
 com uma mensagem de incentivo às bailarinas, por favor. Obrigada por tudo!

Para mim, é uma honra imensa poder ser entrevistado para você. Obrigado pela confiança e deferência. Há muitos anos, percebo que você é uma pessoa bem intencionada, com coerência de ideias, criativa e, principalmente, com visão de longo prazo. Isso é fundamental para quem deseja caminhar profissionalmente.

Gostaria de dizer que este mercado ainda pode crescer muito. Sendo bailarina ou tendo outra atividade que proporcione dimensioná-lo futuramente, ele lhe reverterá uma hora. Dependemos apenas da qualidade do trabalho que desempenhamos. Se não municiarmos nosso intelecto, fatalmente não chegaremos a lugar nenhum.  Vi tantas bailarinas que nadaram, nadaram e morreram na praia, exatamente porque pensaram que sua carreira não teria fim. Elas negligenciaram a questão de se situar no mercado com outras pessoas. Não souberam fazer a propaganda pessoal nem valorizaram as grandes possibilidades quando as tiveram em mãos, e, mais do que isso, negligenciaram elas mesmas quando não investiram em si intelectualmente. Pensaram apenas no agora. Mas os anos passam rápido, num estalar de dedos. Quando se acorda, tudo já se foi.

Para aquelas que sonham em viver da arte, saibam que o prazer em realizar é fundamental para aquilo que fazem, mas nada vai verter láureos sem o devido preparo emocional. Não se deixem levar por uma personalidade frívola, leviana, sem visão de futuro. Aquelas que não vencem o mal da inveja, da boa maneira em conviver com os feitos e progressos de outras pessoas, que vivem do oportunismo e de atitudes interesseiras, têm um longo trabalho pela frente. Frear o ego inflado, aprender a lidar com críticas, ser mais paciente e bem humorada também faz parte do contexto.

O mundo atual, diante de tanta velocidade tecnológica, não consegue definir qual é o tipo de vida ideal para o ser humano.  As profissões estão sempre se desmembrando e criando novas possibilidades de especialização. Não procure ser o que o mundo tenta induzir que você seja. Procure encontrar sua própria receita de vivência. Seu estilo peculiar de satisfação. Conheça seus desejos e saiba os que são reais e podem lhe trazer frutos, descarte aqueles que lhe iludem, a ponto de abalar seu prumo.

Respirar dança tem um tempo.  No tempo seguinte você colhe tudo o que plantou com o respeito das pessoas que conheceu e a seriedade com que conduziu sua jornada. Muito pode ser feito na carreira, principalmente, prolongá-la.  Quem respeitou tudo e todos durante a vida sempre terá o que ensinar para muita gente.

Sempre que achar que tudo está perdido, lembre-se daquela frase mágica: “se sobrar uma única brasa, farei novamente uma fogueira”.

Abraços a todos e sejam felizes!  Vejo vocês na Khan el Khalili! 
 
 

 
 
Mais informações: www.khanelkhalili.com.br
 
 
 
 
 
Entrevista realizada em 2011